As denúncias de violência digital contra mulheres dispararam no Brasil, com um aumento de 188,6% em um ano. Os dados, divulgados nesta segunda-feira (22) pelo Ministério das Mulheres, expõem uma realidade alarmante nos ambientes virtuais.
De janeiro a maio deste ano, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências. No mesmo período do ano passado, o número era de 5.795.
Redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e outros espaços virtuais se consolidam como palco de controle, ameaças, humilhações, exposições indevidas, perseguições, intimidações, chantagens e agressões à dignidade de mulheres e meninas.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, declarou que o salto nas denúncias pode, na verdade, sinalizar uma redução da subnotificação. “Ter os dados da realidade é muito importante. A gente só vai acertar nas respostas pelos governos, políticas públicas, quando tiver mais realismo nas informações”, afirmou.
Para Lopes, a maior confiança no serviço e o aprimoramento na qualidade do acolhimento do Ligue 180 encorajam mais mulheres a denunciar.
Ligue 180 se prepara para a nova realidade
O Ministério das Mulheres, em parceria com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom/PR), concluiu a qualificação de cerca de 350 atendentes da Central do Ligue 180.
A capacitação, realizada entre 9 de junho e esta segunda-feira (22), visa adequar o atendimento às especificidades da violência digital.
A coordenadora geral do Ligue 180, Ellen Costa, explicou que a Central já recebia essas denúncias. Contudo, a atualização do protocolo de atendimento instrui as profissionais a orientar melhor as vítimas de crimes digitais.
“É um diferencial ter atendentes qualificadas para, em um atendimento virtual, identificar esses tipos de violência e repassar essa informação para a população”, disse Costa.
A modernização inclui a revisão do formulário de atendimento, que agora detalha os diferentes tipos de violência digital. A medida reflete um serviço que transcende as orientações sobre a Lei Maria da Penha, conectando-se com a realidade atual de mulheres e meninas.
Perfil das vítimas de violência digital
Em média, os canais do Ligue 180 somam quase 3 mil ocorrências por dia. Cerca de 30% são denúncias; o restante, solicitações de informação e orientação.
A violência no espaço digital subiu da sétima para a quinta posição entre as denúncias mais frequentes entre 2025 e 2026, segundo o Ministério.
O impacto da violência digital não atinge todas as mulheres da mesma forma. Quase metade (48%) das vítimas de denúncias no Ligue 180, em 2025, eram mulheres negras (37,5% pardas e 10,5% pretas), seguidas por mulheres brancas (34,2%).
A faixa etária de 35 a 44 anos concentrou 21,6% dos casos. Ao expandir para 25 a 49 anos, o percentual atinge 50,8% do total.
Dados de 2025 também indicam que 25,7% das vítimas tinham ensino médio completo. A barreira econômica se destaca: 45,9% das mulheres agredidas não possuíam rendimentos ou ganhavam até um salário-mínimo.
Novas regras para plataformas digitais
A qualificação das atendentes e a atualização do protocolo do Ligue 180 seguem as diretrizes do Decreto Presidencial nº 12.976/2026, de proteção de mulheres na internet, em vigor desde a última sexta-feira (19).
O texto disciplina os deveres das plataformas digitais frente a crimes de violência contra mulheres na internet e estabelece mecanismos de prevenção e combate.
Marina Pita, diretora na Secretaria de Políticas Digitais da Secom, explicou o foco do decreto: criar um ambiente seguro que garanta a liberdade de expressão e a permanência das mulheres na internet. “Tanta violência no digital expulsa as mulheres desse ambiente. Nós estamos garantindo a liberdade de expressão ao garantir que as mulheres possam continuar se manifestando e que não sejam expulsas dele por tamanha violência”, declarou.
O decreto estabelece obrigações, diretrizes e prazos de resposta para as empresas de tecnologia, conferindo maior eficácia aos atendimentos do Ligue 180.
A inovação mais significativa do decreto reside na fixação do prazo de duas horas para a remoção, pelas plataformas, de imagens não consentidas de nudez ou ato sexual privado. A medida se baseia no Artigo 21 do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014).
A nova regra também equipara os “deep nudes” (nudez falsa gerada por IA) a imagens reais. O impacto na vida da mulher é o mesmo, justifica a diretora da Secom.
A ministra Márcia Lopes vê o alinhamento da central de atendimento ao novo decreto e os avanços legislativos como parte do Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio, lançado em fevereiro.
Lopes também apontou a necessidade de aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 896/2023, que criminaliza a misoginia e a equipara ao crime de racismo. A proposta ainda tramita na Câmara dos Deputados.
Campanha nacional de conscientização
Para difundir as novas medidas entre o poder público e a sociedade civil, o Ministério das Mulheres lançou a campanha nacional “O Digital é Nosso Lugar”. O tema: “Nossa Conexão é Livre. Proteja. Denuncie. Ligue 180.”
Um guia de orientação sobre violência digital contra mulheres, elaborado pelo Ministério das Mulheres em conjunto com a Secom, está disponível para a população.
Contexto
O Brasil, nos últimos anos, tem intensificado o debate e a legislação sobre a proteção de mulheres contra a violência, tanto em ambientes físicos quanto digitais. A promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) marcou um divisor de águas na proteção jurídica, mas a rápida evolução tecnológica trouxe novos desafios. O crescimento exponencial do uso da internet e redes sociais criou terreno fértil para novas formas de agressão, como perseguição virtual, disseminação de imagens íntimas sem consentimento e assédio. O recente decreto presidencial e a modernização do Ligue 180 representam a adaptação do Estado a essa realidade, buscando preencher lacunas legais e operacionais para garantir a segurança e a liberdade das mulheres no espaço digital, um ambiente que se tornou extensão da vida cotidiana e profissional. O impacto a longo prazo é a criação de um ecossistema digital mais seguro, fundamental para a plena participação feminina na sociedade e economia.