Sons que ecoam milênios e ritmos que narram histórias ancestrais ganharão vida em Campinas. Um pedaço vibrante da floresta amazônica será transplantado para o interior paulista, revelando a profundidade da cultura de um dos povos mais emblemáticos do Brasil: os Tukano.
A experiência promete uma imersão genuína, onde a música, a dança e os saberes orais se entrelaçam para construir uma ponte entre mundos. A oportunidade é gratuita e aberta a todas as idades, um convite raro para um encontro com raízes profundas da nossa identidade nacional.
Amazonia Viva no Coração de Campinas
Neste sábado, 24 de outubro, o Museu da Imagem e do Som de Campinas (MIS Campinas) se transforma em um palco vibrante. A partir das 14h30, a sala térrea do museu abrigará o espetáculo “Ekati Bahsase: A alegria das danças Tukana”.
A apresentação é mais do que um show; é uma janela para o universo do povo Tukano, também conhecido como Yepá Mahsã. Originários do noroeste da Amazônia, eles habitam a bacia do Rio Uaupés e regiões do Alto Rio Negro, tanto no Brasil quanto na Colômbia.
Os dançarinos trarão consigo não apenas passos coreografados, mas a essência de uma cosmogonia. Cada movimento e cada nota reverberam a sabedoria acumulada ao longo de gerações, conectando o público a uma herança cultural inestimável.
Danças que Contam o Tempo
Quatro danças emblemáticas compõem o repertório, cada uma com sua particularidade e significado profundo. A primeira, Mawako, é conhecida pelo som peculiar de um instrumento de sopro feito de embaúba, criando uma melodia hipnotizante.
Em seguida, surge a Cariçú, executada ao som de flautas Wẽõ, que entrelaçam notas em uma melodia que parece evocar a própria paisagem amazônica. É um convite à contemplação e à conexão com a natureza.
A Kapiwaya se destaca por ser acompanhada de um canto ancestral. Suas letras narram histórias, mitos e tradições, transportando os ouvintes para um passado rico em aprendizados e vivências comunitárias.
Por fim, a ñahsã Bahsá, a vibrante dança do maracá. Igualmente embalada por cantos ancestrais, ela pulsa com energia, convidando todos a sentir o ritmo e a alegria que são a marca do povo Tukano.
Cada performance é um elo direto com o modo de vida e a filosofia desses guardiões da floresta. Os instrumentos, feitos com materiais da própria Amazônia, ganham vida nas mãos dos artistas, transformando-se em extensões de sua voz e de sua história.
O diretor artístico do projeto e artista indígena, John Restrepo, sublinha o propósito da iniciativa. Para ele, o objetivo principal é fomentar uma conexão genuína entre o público e a cultura Tukano.
A intenção é explorar a expressividade dos movimentos, a sonoridade única dos instrumentos e a profundidade das tradições ancestrais. É um convite a olhar além do óbvio, a escutar com o coração e a sentir a força de uma cultura viva.
Impacto na região
Ainda que o palco para esta manifestação cultural seja Campinas, a ressonância de uma iniciativa como esta se estende por toda a região metropolitana e cidades vizinhas. O evento representa uma oportunidade singular de intercâmbio.
Moradores de Jundiaí, Vinhedo, Louveira e outras cidades próximas encontram no Museu da Imagem e do Som de Campinas um ponto de acesso privilegiado. Raras são as ocasiões em que manifestações culturais indígenas de tamanha autenticidade chegam ao interior paulista.
Trata-se de uma ponte valiosa entre o ambiente urbano e o saber ancestral. A presença da cultura Tukano no MIS Campinas é um convite explícito à valorização da diversidade cultural brasileira, estimulando a reflexão e o respeito às origens do nosso país.
Essa troca cultural enriquece não apenas quem assiste, mas também as próprias comunidades envolvidas. A visibilidade e o reconhecimento são passos essenciais para a preservação e o florescimento de tradições que são patrimônio de todos.
O Legado de uma Cultura Resiliente
O projeto “Ekati Bahsase” é uma realização viabilizada por recursos significativos. Ele é parte da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), uma iniciativa do Governo Federal voltada ao fomento da cultura.
Além disso, conta com o apoio do programa Fomento, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. Esses apoios são cruciais para que eventos dessa envergadura possam acontecer, garantindo o acesso democrático à arte e à cultura.
A iniciativa reforça a importância de políticas públicas que reconheçam e valorizem a produção cultural indígena. Sem esses mecanismos, muitas dessas vozes e saberes permaneceriam isolados, longe do grande público.
A Visibilidade Ancestral no Século XXI
A apresentação do povo Tukano em Campinas é mais que um evento isolado; insere-se num cenário mais amplo de crescente busca pela valorização e reconhecimento das culturas indígenas no Brasil. Por décadas, muitas dessas manifestações foram marginalizadas ou pouco acessíveis ao grande público.
Atualmente, há um movimento contínuo de resgate e celebração. Projetos como “Ekati Bahsase” surgem como faróis, iluminando a riqueza e complexidade de povos que historicamente contribuíram — e continuam a contribuir — para a formação da identidade brasileira.
A importância deste tema ecoa de forma potente agora, em um momento de discussões intensas sobre preservação ambiental e direitos territoriais. A cultura Tukano não é apenas arte; é um testemunho vivo da relação intrínseca entre o ser humano e a natureza, um modelo de sustentabilidade e sabedoria que o mundo urbano pode aprender a valorizar.
Trazer esses sons e danças para centros urbanos como Campinas ajuda a desmistificar preconceitos e a construir pontes de entendimento. É uma forma de garantir que a voz dos povos originários não apenas seja ouvida, mas celebrada, como parte essencial do nosso presente e futuro.



