A zagueira Paloma Maciel, do Cruzeiro, rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho direito e lesionou o menisco durante treino com a seleção brasileira feminina. A contusão, sofrida na quarta-feira (17) em Itu, interior paulista, forçou seu retorno imediato a Belo Horizonte para cirurgia. O caso eleva para sete o número de atletas do clube afastadas por lesões de LCA apenas nesta temporada, reacendendo o alerta sobre a saúde das jogadoras no futebol feminino e o impacto na preparação das equipes.
Com 26 anos, Paloma engrossa uma estatística alarmante nas Cabulosas. Seis das sete atletas com LCA romperam o ligamento em 2024, um número que desestabiliza a preparação e o desempenho da equipe. A lista inclui a lateral Laura Felipe, a zagueira Tainara, a meia Gaby Soares e as atacantes Millene e Ravenna. Paloma, aliás, havia assumido a vaga de Ravenna no grupo da seleção, evidenciando a rotatividade forçada por lesões. A atacante Fabiola Sandoval também sofreu a mesma lesão, mas em julho do ano anterior. A recorrência de casos levanta dúvidas sobre protocolos de treino, recuperação e prevenção no esporte de alto rendimento.
O problema é sério. O ligamento cruzado anterior, explicou o cirurgião Marco Demange, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em entrevista à TV Brasil, funciona como uma “corda” que conecta fêmur e tíbia, estabilizando a rotação do joelho. O risco de ruptura, disse Demange, aumenta em ambientes que travam o joelho, em esportes de alto impacto com aterrissagens inadequadas ou descontrole inesperado do movimento. Cenário comum no futebol, com movimentos bruscos e mudanças de direção.
Diante da série de lesões, a gerência do Cruzeiro reconhece que não há coincidência na sequência de problemas. Luiza Parreiras, gerente de Futebol Feminino do clube, declarou que a equipe busca levantar dados e informações para entender a raiz do problema.
Ela citou pontos como GPS, controle de carga de treino, monitoramento do sono, ciclo menstrual, percentual de gordura, hidratação pré e pós-jogo, além do trabalho psicológico e de força muscular. Uma investigação profunda, buscando tecnologia e estrutura para chegar a conclusões claras sobre a saúde e performance das atletas. A iniciativa visa não só tratar, mas prevenir novas ocorrências.
A preocupação não se restringe aos clubes. As lesões de LCA em mulheres no futebol são uma questão global. A Federação Internacional de Futebol (FIFA) financia um estudo com a Universidade de Kingston, na Inglaterra. O objetivo: investigar uma possível ligação entre as lesões de LCA e o ciclo menstrual feminino. Artigos médicos já indicam uma incidência duas a oito vezes maior em mulheres, um diferencial biológico que impõe desafios únicos à medicina esportiva. As diferenças anatômicas e hormonais podem influenciar a estabilidade ligamentar, mas a ciência busca respostas mais conclusivas para mitigar esses riscos.
LCA: Alerta Também na Seleção Brasileira
Outra jogadora, a atacante Dudinha, rompeu o LCA do joelho direito em junho, durante um amistoso entre Brasil e Estados Unidos, em Fortaleza. O problema, portanto, atinge atletas de diferentes clubes, mesmo na seleção, reforçando a gravidade da questão para o cenário nacional. A recuperação de Dudinha a afasta de futuras convocações.
Paloma fazia parte do grupo de 29 jogadoras reunidas em Itu. A semana de treinos, que vai até sábado (20), é vista pelo técnico Arthur Elias como um período importante para consolidar a equipe. Há apenas quatro datas-FIFA antes da Copa do Mundo do ano que vem, sediada no Brasil. Cada dia conta, e a perda de jogadoras por lesão complica o planejamento e a busca por entrosamento.
“Essa convocação já estava no nosso planejamento há muito tempo, então conseguimos realizar agora com a pausa da Copa do Mundo masculina”, afirmou Elias ao site da CBF. O treinador ressaltou que, apesar de possíveis mudanças, a base da seleção não sofrerá alterações radicais. Contudo, a necessidade de adaptar elencos devido a afastamentos prolongados gera uma pressão extra sobre a comissão técnica, que busca entrosamento e um alto nível de competitividade para a competição em casa. A lesão de Paloma, somada a outros casos, acende um sinal de alerta sobre a integridade física das atletas.
No Campeonato Brasileiro Feminino, o Cruzeiro ocupa a sétima colocação, tentando se manter na parte superior da tabela. As Cabulosas voltam a campo em 24 de julho, às 21h30, contra o São Paulo, na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. Sem Paloma Maciel em campo, o time terá de se ajustar a mais um desfalque.
Contexto
As lesões de ligamento cruzado anterior (LCA) representam um dos desafios mais sérios no esporte de alto rendimento, especialmente no futebol feminino. Estatísticas globais apontam que atletas mulheres possuem um risco significativamente maior de sofrerem este tipo de lesão em comparação com homens. Fatores biomecânicos, hormonais e as próprias exigências de velocidade e rotação do futebol moderno contribuem para a alta incidência. A recuperação, frequentemente, exige cirurgia e um afastamento de seis a doze meses, comprometendo carreiras e o desempenho das equipes. A FIFA, atenta à questão, intensificou investimentos em pesquisa para identificar causas específicas e desenvolver estratégias preventivas. O cenário reforça a urgência em entender e mitigar riscos para proteger a integridade física das jogadoras.