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Chuva em MG: famílias AGORA lutam por recomeço após 30 dias

Um Mês Após a Tragédia: Chuvas Devastam a Zona da Mata Mineira e Famílias Lutam Para Reconstruir Suas Vidas

Um mês se passa desde que enxurradas, deslizamentos de terra e enchentes devastaram a Zona da Mata Mineira, impactando profundamente a vida de milhares de famílias. As chuvas torrenciais, concentradas na noite de 23 de fevereiro, deixam um rastro de destruição e dor, com um saldo de 73 mortes confirmadas: 65 em Juiz de Fora e 8 em Ubá. A magnitude da tragédia exige respostas rápidas e eficientes para amparar as vítimas e reconstruir as áreas afetadas.

Além das perdas irreparáveis, as chuvas causam estragos em Matias Barbosa e municípios vizinhos, expondo a vulnerabilidade de comunidades inteiras. A reconstrução se torna um desafio complexo que exige a colaboração de todos os níveis de governo e da sociedade civil.

O Drama de Cláudia e a Dor da Perda no Parque Jardim Burnier

Em meio ao caos, a história de Cláudia da Silva, 71 anos, emerge como um retrato da dor que assola a região. Moradora do Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, ela relata a perda de 20 familiares na tragédia. A comunidade, marcada pela vulnerabilidade social, concentra o maior número de vítimas na cidade, com 22 mortes registradas.

A reportagem da Agência Brasil acompanha de perto o drama de Cláudia, que, além de lidar com o luto, auxilia nas buscas por desaparecidos. Com o passar das semanas, o cansaço e a desesperança se intensificam, revelando a profundidade do impacto psicológico da tragédia.

A Busca por Apoio Psicológico e o Sentimento de Abandono

“Eu tive que procurar tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça”, desabafa Cláudia. A situação se agrava com a notícia de que um sobrinho, sobrevivente da tragédia, precisou amputar uma perna. “Estou só chorando, desesperada, sem conseguir comer direito”, lamenta Cláudia, evidenciando a urgência de assistência para as vítimas.

A casa de Cláudia, onde mora com a mãe de 85 anos, é interditada pela Defesa Civil, mas ela se recusa a deixar o local. O medo e o sentimento de abandono permeiam o cotidiano da família. “Ninguém dos órgãos competentes veio aqui dar apoio, oferecer uma casa, pelo menos. Não significamos nada para eles, só durante as eleições”, denuncia Cláudia, expondo a necessidade de ações efetivas por parte do poder público.

A Rotina Exaustiva de Maria da Conceição e os Impactos na Saúde

A aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, 62 anos, também moradora do Parque Jardim Burnier, relata uma rotina exaustiva de deslocamentos. Durante a noite, ela se abriga na casa da filha, mas retorna ao imóvel interditado pela Defesa Civil para realizar a limpeza e manutenção.

“Você leva uma vida inteira para construir uma casa e, de repente, tem que sair assim, na correria, só com a roupa do corpo”, lamenta Maria da Conceição. A situação impacta diretamente a saúde da família: o marido realiza tratamento cardíaco, enquanto Maria relata agravamento da ansiedade e dificuldades para controlar a diabetes. Apesar dos cadastros realizados pela prefeitura, a família ainda não recebe apoio financeiro ou habitacional. A falta de assistência agrava a situação de vulnerabilidade.

A Dificuldade de Acessar o Auxílio e a Espera na Fila

“Recebemos apenas cesta básica de doações voluntárias. Veio pessoal da prefeitura, cadastrou todo mundo e mandaram ir no Diga [centro municipal de atendimento], mas não fui ainda. Tem lugar que as pessoas demoram 10 horas na fila. Assim, é muito difícil”, reclama Maria da Conceição. A burocracia e a demora no acesso aos serviços essenciais dificultam a recuperação das famílias afetadas, exigindo agilidade e eficiência por parte das autoridades.

Nilton Gusmão e as Dificuldades Financeiras Após a Tragédia

O serralheiro Nilton Angelo de Gusmão, 60 anos, residente do Parque Jardim Burnier há mais de quatro décadas, enfrenta dificuldades para manter as contas em dia. Ele relata que ficou semanas sem trabalhar, perdeu contratos e viu sua renda diminuir drasticamente. A crise financeira se soma à dor da perda e à incerteza do futuro.

“Eu perdi dois serviços que iam me dar R$ 4 mil em duas semanas. Chegaram as contas de luz, de água, de telefone, e eu tenho que pagar. Precisamos de ajuda, de algum auxílio financeiro para conseguir tocar a vida”, apela Nilton, evidenciando a necessidade de apoio financeiro para as famílias afetadas.

Respostas das Prefeituras: Auxílio, Levantamentos e Ações em Curso

Diante da magnitude da tragédia, as prefeituras de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa mobilizam esforços para atender às vítimas e reconstruir as áreas afetadas. No entanto, a complexidade da situação exige ações coordenadas e investimentos significativos.

Juiz de Fora: Auxílio Calamidade e Investimentos em Infraestrutura

A Prefeitura de Juiz de Fora anuncia que o auxílio calamidade municipal será creditado nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas na próxima segunda-feira (23). A administração municipal divulga um levantamento sobre os principais impactos das chuvas na cidade e as ações em curso. Desde o dia 23 de fevereiro, a Defesa Civil registra 6.690 ocorrências no município.

Fevereiro de 2026 entra para a história como o mês mais chuvoso da cidade, com 763,8 mm. Mais de 8,5 mil pessoas ficam desabrigadas e 1.008 moradias são completamente destruídas. Até o dia 19 de março, 170 famílias estão hospedadas em hotéis, demonstrando a necessidade urgente de moradia para as vítimas.

A prefeitura informa que, entre 2021 e 2025, investe R$ 26 milhões em obras de contenções e R$ 62 milhões em 16 quilômetros de redes de drenagem, além de R$ 230,6 milhões em manutenção preventiva. No entanto, a escala da tragédia demonstra que os investimentos são insuficientes para prevenir e mitigar os impactos das chuvas.

Ubá: Assistência Integral e Cadastro Para Auxílios

A Prefeitura de Ubá informa que presta assistência integral aos moradores mais impactados pelas chuvas, oferecendo abrigo, alimentação e acompanhamento psicológico. Todas as pessoas afetadas são cadastradas para acesso a auxílios e benefícios dos governos federal e estadual.

As vistorias nos imóveis atingidos são priorizadas e as edificações consideradas seguras são liberadas para reocupação. A inundação atinge uma área de aproximadamente 47,4 km², afetando cerca de 4.790 pessoas. O município solicita mais de R$ 55 milhões ao governo federal para ações de recuperação e restabelecimento das áreas afetadas, demonstrando a dependência de recursos externos para enfrentar a crise.

Matias Barbosa: Auxílio Financeiro e Danos em Unidade de Saúde

A Prefeitura de Matias Barbosa informa que, apesar dos transtornos, não há registro de perdas estruturais graves. Um projeto de lei é elaborado para instituir auxílio financeiro municipal para moradores e comerciantes atingidos. Mais de 300 famílias e cerca de 80% do comércio local são impactados.

Visitas técnicas com representantes do Ministério das Cidades identificam a necessidade de obras de contenção de encostas e medidas para prevenção de alagamentos. Uma Unidade Básica de Saúde é danificada, exigindo a instalação de unidades móveis para atendimento à população, expondo a fragilidade da infraestrutura local.

Ações do Governo Federal: Auxílio Reconstrução, Minha Casa Minha Vida e Linhas de Crédito

O governo federal mobiliza um conjunto de ações para atender a população e iniciar a reconstrução das áreas afetadas, com recursos destinados e previstos que chegam a quase R$ 2 bilhões. As medidas incluem investimentos diretos, crédito e programas habitacionais.

Uma das principais medidas é o Auxílio Reconstrução, no valor de R$ 7,3 mil por família atingida. O benefício está em fase de cadastro e validação pelas prefeituras. Outra frente é a modalidade Compra Assistida do Minha Casa Minha Vida, com subsídio integral para aquisição de imóveis, podendo chegar a R$ 200 mil por unidade, buscando garantir moradia digna para as famílias.

O pacote de medidas inclui ações emergenciais para trabalhadores, como a antecipação do abono salarial e pagamento de parcelas extras do seguro-desemprego, além da liberação do saque calamidade do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Até 19 de março, os saques somam mais de R$ 165 milhões em Juiz de Fora e R$ 38 milhões em Ubá, evidenciando a necessidade de recursos imediatos.

Por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, são aprovados mais de R$ 55 milhões para ações emergenciais e de reconstrução. Na área da saúde, são destinados R$ 14,9 milhões para reforçar o atendimento, com envio de medicamentos, unidades móveis e apoio psicossocial. Para educação e assistência social são repassados R$ 4,56 milhões para recuperação emergencial de escolas e manutenção de abrigos.

O governo federal também abre linhas de crédito com condições facilitadas e libera R$ 1,3 bilhão em crédito extraordinário, além de até R$ 500 milhões em financiamentos com recursos do Fundo Social. As próximas etapas incluem a aprovação de novos planos pela Defesa Civil, execução de obras de infraestrutura e ampliação das políticas de habitação e assistência social, buscando reconstruir o futuro das famílias.

Silêncio do Governo Estadual: A Falta de Informação e a Cobrança por Respostas

O Governo do Estado de Minas Gerais não responde aos pedidos da reportagem da Agência Brasil para informar ações e investimentos direcionados às famílias afetadas pelas chuvas na Zona da Mata Mineira. A falta de informação dificulta a avaliação do apoio estadual e a cobrança por medidas efetivas.

Contexto

As fortes chuvas na Zona da Mata Mineira em fevereiro de 2026 representam um dos maiores desastres naturais da história recente da região. A tragédia expõe a vulnerabilidade de comunidades em áreas de risco e a necessidade de investimentos em prevenção e infraestrutura. A reconstrução das áreas afetadas e o apoio às famílias demandam ações coordenadas e recursos significativos de todos os níveis de governo e da sociedade civil.

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