Há dez anos, um marco no esporte paralímpico brasileiro. No dia 23 de maio de 2016, o local que antes abrigava uma unidade da antiga Febem, com histórico de tumultos, transformou-se no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro (CTPB). A mudança consolidou São Paulo como epicentro da preparação de atletas, impulsionando a ascensão do país no cenário mundial do paradesporto.
A construção de uma das mais modernas estruturas esportivas do mundo demorou dois anos e meio. Erguido no quilômetro 11,5 da Rodovia dos Imigrantes, na Vila Guarani, zona sul de São Paulo, o complexo ocupa uma extensão de 95 mil metros quadrados.
O investimento total somou R$ 305 milhões, com R$ 187 milhões vindos do Ministério do Esporte e o restante, do governo de São Paulo. A aposta pública transformou um espaço de passado controverso em futuro para centenas de atletas.
Antes do CTPB, atletas paralímpicos enfrentavam a falta de infraestrutura. As modalidades, como basquete em cadeira de rodas, atletismo e natação, usavam instalações que não eram exclusivas. Tínhamos que bater na porta e dividir o espaço, nem pegávamos os melhores horários”, recordou Yohansson Nascimento, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
A iminência dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, acelerou o projeto. A entrega do CT, para muitos, simbolizou a realização de um sonho de décadas.
Yohansson, ele próprio dono de seis medalhas paralímpicas, incluindo um ouro em Londres 2012, viveu na pele essa carência. Agora, a realidade é outra.
A estrutura do Centro Paralímpico abrange quadras de tênis, basquete, vôlei sentado, goalball – o único esporte paralímpico não adaptado, exclusivo para deficientes visuais –, futebol de cegos e futebol de paralisados cerebrais (PC). Além disso, há uma arena multiuso, espaços para esgrima, judô, taekwondo, bocha e tênis de mesa.
O complexo conta ainda com piscinas olímpica e semiolímpica, pistas de atletismo (externa e interna para treinos) e um residencial capaz de abrigar cerca de 300 pessoas. Tudo pensado para o alto rendimento e a formação.
Em 2017, o CPB venceu a concorrência pública para gerir o CT por cinco anos. O sucesso da administração levou à renovação do acordo em 2024, estendendo a gestão por mais 35 anos.
A entidade, que antes operava em Brasília, transferiu seu centro administrativo para São Paulo, concentrando as operações ao lado dos atletas. Viviane Monteiro, deficiente auditiva e funcionária do setor de faturamento, testemunhou essa transformação. “Conheci o Centro Paralímpico pela internet, mandei currículo e fui chamada. É acolhedor para pessoas com deficiência. Sou muito grata por estar aqui, vendo essa mudança, os atletas sempre engajados”, declarou.
CTPB Alavanca o Esporte Paralímpico Brasileiro
A relação entre a construção do CTPB e a evolução dos resultados é direta. Nos Jogos de Tóquio 2021, a primeira Paralimpíada em que os atletas tiveram acesso pleno à estrutura de preparação, o Brasil repetiu as 72 medalhas da Rio 2016, mas com uma diferença crucial: conquistou 22 ouros, oito a mais que na edição anterior. A expectativa para os Jogos de Paris 2024 aponta para um desempenho ainda mais expressivo, com projeções de 25 douradas e 88 pódios, caso a tendência de crescimento se mantenha.
Essa escalada se reflete no quadro de medalhas. O Brasil, oitavo no Rio de Janeiro, subiu para o sétimo lugar em 2021. A meta para 2024 é alcançar, de maneira inédita, o top-5 global.
No ano passado, o país fez história ao liderar o Campeonato Mundial de atletismo, superando a China, reconhecida como a maior força do esporte paralímpico.
Yohansson Nascimento traça um paralelo com a Fórmula 1. “Lá, o que é desenvolvido será replicado na indústria automobilística. Da mesma forma aqui no CT, não só na parte esportiva, mas também, por exemplo, nas próteses. Atletas usam as melhores, os melhores joelhos. Isso, depois, é replicado para toda uma comunidade de pessoas com deficiência”, explicou o dirigente.
Inicialmente focado no alto rendimento, o CT expandiu seu alcance. Hoje, atua como um polo de formação por meio da Escola Paralímpica de Esportes.
O projeto, iniciado em 2018 e replicado em centros de referência pelo país, oferece iniciação gratuita em modalidades adaptadas para jovens de 7 a 17 anos com deficiências física, visual e intelectual.
Alessandra Oliveira é uma das revelações. Diagnosticada com vasculite e amputada devido a uma reação vacinal, ela sequer sabia nadar ao ingressar na Escolinha. Aos 18 anos, já figura entre as promessas com potencial para o Mundial de 2025 em Singapura, na categoria 100 metros nado peito da classe SB4.
No atletismo, João Pedro Santos, que perdeu a visão em 2018 por glaucoma congênito, entrou para a Escolinha em 2019. No último ano, nos Jogos Parapan-Americanos de Jovens em Bogotá, o paulista conquistou três medalhas, sendo duas de ouro, nos 100 e 400 metros da classe T11.
“Quando senti aquele ambiente do Parapan, tive certeza de que é isso o que quero. E se puder fazer isso até quando tiver 80, 90 anos, é o que farei. Hoje busco nunca me impor limites por conta do esporte, porque vi que aqui dentro poderia fazer coisas que nunca imaginei”, afirmou João Pedro, de 18 anos.
CTPB: Palco de Grandes Eventos
O CTPB consolidou-se como um centro de eventos. O Parapan de Jovens, em 2017, marcou a primeira grande competição sediada no local. Desde sua inauguração, o complexo abrigou mais de 2,2 mil eventos.
Entre as iniciativas, destacam-se o Festival Paralímpico, que proporciona a crianças e jovens com e sem deficiência uma vivência com esportes adaptados, e as Paralimpíadas Escolares, fundamentais para a detecção de novos talentos.
No ano passado, a estrutura recebeu o Mundial Sub-23 de basquete em cadeira de rodas. Em 2026, será a vez de sediar o Mundial de rugby em cadeira de rodas, agendado entre os dias 15 e 24 de agosto.
“É um grande orgulho, uma oportunidade ímpar de organizarmos nossa maior competição e podermos jogar com apoio da torcida. O Brasil tem crescido na modalidade, então a expectativa é alta. A estrutura que o CT oferece nos permitiu realizar um evento dessa magnitude”, declarou José Higino, presidente da Associação Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas (ABRC).
Contexto
A transformação do antigo terreno da Febem no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro representa um divisor de águas na história do esporte adaptado e da inclusão social no país. Por décadas, a antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor foi sinônimo de polêmicas e desafios sociais, refletindo lacunas nas políticas públicas. A escolha desse local para sediar um projeto de tamanha magnitude simbólica e prática não apenas ressignifica o espaço, mas também projeta o Brasil como uma potência no esporte paralímpico. A iniciativa vai além da formação de atletas de alto rendimento, impulsionando a pesquisa, o desenvolvimento de tecnologias assistivas e a promoção da inclusão de pessoas com deficiência em todos os níveis da sociedade, consolidando um legado de acesso e oportunidade.