A terapia celular CAR-T Cell, desenvolvida no Brasil, alcançou uma taxa de sucesso de 87,5% em pacientes com linfoma não Hodgkin que já haviam esgotado outras opções de tratamento, como quimioterapia, radioterapia e transplante. Os resultados preliminares foram apresentados nesta quarta-feira (10) pelo Ministério da Saúde, principal investidor do projeto. A pesquisa, resultado de uma parceria entre o Hemocentro de Ribeirão Preto, o Instituto Butantan e o Ministério, representa um avanço significativo para pacientes refratários, sem resposta aos métodos convencionais.
O Ministério da Saúde injetou R$ 100 milhões no estudo. A expectativa é incorporar o tratamento ao Sistema Único de Saúde (SUS) e torná-lo gratuito.
Atualmente, um tratamento similar custa cerca de R$ 2,5 milhões na rede privada. A produção em escala, envolvendo instituições públicas e sem fins lucrativos, deve reduzir drasticamente esse custo de aquisição para o governo.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou os resultados como “muito animadores” e uma nova esperança. Ele afirmou que o Comitê de Inovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) agilizará a avaliação e o acompanhamento do produto, dado seu caráter inovador.
A pesquisa segue em andamento, recrutando novos pacientes dentro dos padrões internacionais. Para a aprovação final do registro, é necessário acompanhar os pacientes por no mínimo um ano após a aplicação da terapia, analisando marcadores de segurança e eficácia. Com o último paciente incluído em maio, a previsão para a conclusão das análises e possível registro gira em torno de um ano e meio.
A fábrica em Ribeirão Preto, descrita como a maior da América Latina e do Sul Global, tem capacidade para produzir até mil terapias CAR-T Cell.
O Alcance da Terapia CAR-T em Crianças e Adolescentes
A pesquisa clínica com a CAR-T Cell não se restringe a adultos. Inclui também crianças e adolescentes, principalmente nos casos de leucemia linfoide aguda, o câncer mais comum na infância, respondendo por 70% a 80% dos diagnósticos pediátricos.
Pacientes recrutados para leucemia variam de três a 25 anos. Embora a quimioterapia convencional seja eficaz para mais de 90% das crianças, a terapia celular surge como uma alternativa vital para o grupo dos 10% que não respondem ao tratamento padrão.
Para linfomas, menos prevalentes na infância, o recrutamento é direcionado a pacientes maiores de 18 anos.
Expansão do Programa Genomas Brasil
Padilha anunciou um aporte de R$ 180 milhões para a segunda fase do Programa Genomas Brasil. Iniciado em 2020, o projeto, que tem a USP de Ribeirão Preto como uma de suas bases, agora incorpora novas instituições. A Universidade de Brasília (UnB) terá o primeiro laboratório do gênero na região Centro-Oeste, e mais hospitais do SUS se integrarão à rede.
O ministro descreveu o projeto como um “orgulho para o país”, destacando o Brasil como um dos países com maior diversidade genômica global. Isso, segundo ele, confere ao Brasil grande potencial para o desenvolvimento de novos medicamentos.
A recente lei de pesquisa clínica, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desburocratizou e encurtou os prazos de aprovação de estudos no país. Em 2025, o Brasil viu sua participação no cenário internacional de pesquisas clínicas aumentar em 30%.
O mapeamento do exoma, viabilizado por laboratórios parceiros do projeto, passou a ser garantido pelo Ministério da Saúde para todos os centros de especialidades do SUS. Essa tecnologia permite diagnosticar doenças raras em crianças nos primeiros seis meses de vida, um avanço significativo, já que antes o diagnóstico demorava cerca de sete anos. A antecipação do tratamento melhora substancialmente a qualidade de vida dos pacientes.
Contexto
A terapia CAR-T Cell representa uma das fronteiras da medicina personalizada, reengenheirando linfócitos T do próprio paciente para combater células cancerígenas. Sua emergência global oferece novas esperanças a indivíduos com cânceres hematológicos refratários, que esgotaram terapias convencionais. No Brasil, o investimento público no desenvolvimento nacional dessa tecnologia visa democratizar o acesso a um tratamento de alto custo, transformando o panorama do combate a leucemias e linfomas. Paralelamente, a expansão do Programa Genomas Brasil consolida a capacidade do país em pesquisa genômica, posicionando-o estrategicamente na medicina de precisão e na descoberta de fármacos, ao explorar sua vasta diversidade genética para o benefício da saúde pública.