O Brasil vive um intenso debate sobre o uso e acesso aos chamados medicamentos injetáveis para perda de peso, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. A discussão atravessa a saúde pública, a pressão estética e os altos custos de tratamentos que prometem revolucionar o controle da obesidade e diabetes tipo 2.
Esses fármacos, cuja primeira versão chegou ao país em 2017, potencializam o tratamento de doenças crônicas, mas também alimentam uma “economia moral da magreza”, pressionando por um ideal de corpo que desafia especialistas e sistemas de saúde.
O endocrinologista Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca a relevância clínica. Ele prefere o termo “medicamentos injetáveis para tratamento da obesidade e de diabetes”.
“São medicamentos que realmente trouxeram uma revolução no tratamento dessas duas doenças, com resultados na perda de peso e na diminuição de risco cardiovascular”, declarou Dornelas.
O uso, contudo, é rigoroso.
“São medicamentos indicados para quem vive com obesidade ou com diabetes ou com as duas coisas juntas. São critérios técnicos que devem ser avaliados sempre por um profissional de saúde”, explicou o especialista.
SUS Debate Acesso e Custo Bilionário
A expansão do acesso a esses tratamentos na rede pública esbarra em barreiras. A principal delas é o impacto financeiro.
Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recusou a inclusão da semaglutida e da liraglutida. O orçamento estimado para a incorporação, superior a R$ 8 bilhões, representaria o dobro do Programa Saúde Popular.
O Ministério da Saúde informou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o pedido de prioridade no registro de fármacos com os princípios ativos semaglutida e liraglutida. O objetivo é viabilizar uma futura produção nacional e, assim, baratear o custo.
A expiração da patente da semaglutida, substância presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, ocorreu em 20 de março deste ano. A expectativa é de concorrência, mas com ressalvas.
Henderson Fust, advogado especialista em Bioética e Regulação da Saúde, pondera o cenário.
“Mas é preciso pensar que, muito embora vá baratear, não é um amplo e pleno barateamento. A produção da substância, do insumo farmacêutico ativo, é uma produção mais complexa do que os chamados medicamentos genéricos”, afirmou Fust.
Pressão Estética e Uso Indevido
Paralelamente à discussão sobre o acesso clínico, o país observa uma popularização acelerada das canetas emagrecedoras. Este fenômeno intensificou a “economia moral da magreza”, termo cunhado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
A professora Fernanda Baeza Scagliuzi, das Faculdades de Saúde Pública e Medicina da USP, descreve a percepção social.
Um corpo magro é associado à virtude, ao esforço individual. Já a obesidade carrega estereótipos de preguiça e falta de disciplina. “Agora, mesmo as pessoas que não são gordas sofrem a pressão estética pela magreza”, disse a pesquisadora, que também investiga efeitos colaterais do uso. Essa pressão social leva muitos a buscar os fármacos sem indicação médica ou acompanhamento adequado.
A realidade dos pacientes ilustra o drama.
Francenobre Costa de Sousa, de 58 anos, convive com diabetes tipo 2 desde os 45. Seu tratamento atual com insulina não garante o controle total da doença.
A médica de família que acompanha Nobi na Unidade Básica de Saúde (UBS), Alexandra Padilha, vê nos injetáveis uma saída. “Seria muito interessante porque poderia até reverter o uso da insulina, no caso dela. Ela tem sobrepeso, poderia voltar para o seu Índice de Massa Corporal [IMC] normal”.
A dentista Bárbara Lopes já usou as canetas, mas recuperou o peso. Em novo tratamento, ela lida com perimenopausa, pré-diabetes e ansiedade. “Eu mudava alimentação, buscava fazer um pouco de exercício e não via aquele quadro mudar”.
Casos como o de Bárbara reforçam o alerta das sociedades médicas. O tratamento farmacológico não deve ser isolado. Ele precisa de acompanhamento nutricional e estímulo à atividade física. “O estilo de vida para esse paciente vai ser fundamental. É isso que vai fazer com que ele consiga pelo menos equilibrar, fazer com que ele não volte a ganhar todo o peso que perdeu no processo do tratamento”, declarou a médica geriatra Marcela Pandolfi.
Fiscalização e Crimes
O “boom” na demanda pelas canetas emagrecedoras trouxe, também, uma onda de irregularidades. Ações criminosas envolvem importação, manipulação, prescrição e dispensação ilegal dos medicamentos.
Anvisa, forças de segurança e Receita Federal intensificam a fiscalização e investigam crimes contra a saúde pública e a economia nacional, buscando coibir o mercado paralelo e garantir a segurança dos pacientes.
Contexto
A obesidade e o diabetes tipo 2 representam desafios de saúde pública globais, com crescentes taxas de prevalência e impacto significativo na morbidade e mortalidade. A chegada de novas tecnologias farmacológicas, como os medicamentos injetáveis análogos do GLP-1, abre perspectivas de tratamento mais eficazes para o controle do peso e da glicemia. Contudo, seu alto custo e o debate sobre a ética da prescrição em cenários não clínicos amplificam as desigualdades no acesso e aprofundam questões sociais sobre o corpo e a saúde. A busca por soluções equilibradas envolve a pesquisa por produção nacional, a fiscalização rigorosa e a conscientização sobre a importância de tratamentos multidisciplinares.