Os principais candidatos à presidência da República inauguraram oficialmente suas campanhas nas ruas do país neste domingo (16). O início dos atos presenciais e da propaganda virtual segue o cronograma estabelecido pela Justiça Eleitoral, marcando o pontapé inicial de uma corrida eleitoral decisiva para o futuro do Brasil. A mobilização se estende por diferentes regiões, com estratégias distintas para conquistar o eleitorado, priorizando temas como segurança pública, economia e pautas sociais.
Esta fase intensiva de mobilização eleitoral permite uma interação direta dos postulantes com a população. Segundo a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/97) e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as atividades de campanha, incluindo carreatas, comícios e distribuição de material gráfico, estão autorizadas até 3 de outubro, um dia antes do primeiro turno. Comícios, por sua vez, podem ser realizados entre 8h e meia-noite, com o limite final em 1º de outubro. O período é crucial para a apresentação de propostas e a consolidação de candidaturas.
O Calendário Eleitoral e o Engajamento Cívico
O pontapé inicial da campanha de rua representa a transição da fase pré-eleitoral, predominantemente virtual, para uma abordagem mais tradicional e direta. Este momento é vital para que os eleitores avaliem as plataformas e o perfil de cada candidato. A legislação define um cronograma rigoroso para garantir a igualdade de condições entre os concorrentes e a transparência do processo democrático. A proximidade do primeiro turno, agendado para 4 de outubro, intensifica a urgência e a visibilidade das propostas de governo.
Lula (PT) Apela à Militância em Palco Histórico no ABC Paulista
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu início à sua busca pelo quarto mandato presidencial em um comício no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, na Região Metropolitana de São Paulo. O local não foi uma escolha aleatória; ele simboliza o berço de sua trajetória política, palco das históricas assembleias de operários metalúrgicos do ABC Paulista. Estas greves, ocorridas em 1979, foram cruciais para pressionar a ditadura militar e consolidar a liderança de Lula no movimento sindical e na política nacional. A simbologia do local visa reforçar a conexão do presidente com a classe trabalhadora e sua história de luta.
Em discurso a um estádio lotado, Lula convocou a participação ativa da militância. “A partir de hoje, só vamos dormir direito em 5 de outubro. Cada militante nosso tem de andar com a comparação do que nós fizemos e do que os outros fizeram”, declarou, estabelecendo um tom de urgência e um claro contraste com governos anteriores. A estratégia aponta para a valorização de suas gestões passadas e a crítica às administrações que o antecederam, buscando fidelizar e motivar sua base eleitoral em um cenário competitivo.
O evento adiantou as linhas mestras da campanha petista, com destaque para a defesa da soberania nacional, o fortalecimento de pautas sociais e o embate ideológico com os partidos de direita. Questões como o papel da mulher na sociedade e as abordagens em relação à segurança pública emergiram como pontos de disputa central. Lula, em sua sétima candidatura à presidência, enfatizou seu compromisso com a vida e a saúde pública, afirmando que “enquanto for vivo não vai permitir que uma direita responsável pela morte de crianças sem remédio e pela morte de 400 mil pessoas sem vacina volte”. A declaração faz referência à crise sanitária da pandemia de COVID-19 e à percepção de inação governamental.
A presença de políticos de diversas regiões do país, como Benedita da Silva, candidata ao Senado no Rio de Janeiro, que representou os postulantes ao legislativo, evidenciou o esforço do Partido dos Trabalhadores para fortalecer a chapa completa. Na área de segurança pública, Lula defendeu a criação de um ministério específico e a aprovação de uma lei de combate ao crime organizado, com foco na identificação e punição dos “grandes beneficiários do crime”, propondo uma visão estratégica para o enfrentamento da criminalidade.
Flávio Bolsonaro (PL) Promete Defender Legado do Pai em Copacabana
Flávio Bolsonaro (PL) iniciou sua jornada presidencial na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. A escolha do local é altamente simbólica, pois a orla carioca serviu de palco para diversas manifestações bolsonaristas nos últimos anos, incluindo protestos contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe de Estado. A estratégia de Flávio reforça sua conexão com a base fiel do eleitorado e com o histórico político da família.
Por volta das 11h30, Flávio subiu ao carro de som trajando uma camiseta com os dizeres “Meu Partido é o Brasil” e as cores da bandeira nacional, elementos que remetem diretamente à identidade e simbologia do bolsonarismo. Ele estava acompanhado de seu candidato a vice, Alfredo Gaspar, de sua mãe, Rogéria, também candidata, e da esposa, Fernanda, transmitindo uma imagem de unidade familiar e política. O evento buscou capitalizar a força de seu sobrenome e a memória afetiva de seus apoiadores.
O comício foi marcado por um forte apelo emocional, com Flávio Bolsonaro tocando áudios do pai, Jair Bolsonaro, refletindo sobre a família após o atentado que sofreu em 2018. Flávio prometeu levar à frente o legado do ex-presidente, que governou o país entre 2019 e 2022. “Sei que pareço com ele [Jair, pela semelhança física]. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, disse Flávio, em uma tentativa de demonstrar humildade enquanto reafirmava a importância de seu antecessor, em frente a milhares de pessoas na praia. O candidato reiterou a defesa do pai, afirmando que Jair foi preso injustamente, uma narrativa central para mobilizar seus eleitores.
Entre as principais propostas, Flávio Bolsonaro destacou a indicação de quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF), prometendo um equilíbrio entre “homens e mulheres”, em um cenário onde a Corte conta com apenas uma ministra, Cármen Lúcia. Na segurança pública, o candidato prometeu classificar milícias e organizações do tráfico de drogas como “terroristas”, reduzir a idade penal, e enfrentar roubos e furtos, além de combater os altos índices de feminicídio. Tais medidas visam um endurecimento da legislação e das ações policiais. No plano econômico, criticou a alta taxa de juros do país, com a Selic fixada em 14% ao ano, prometendo aliviar a inflação para a classe média, por meio de um “tesouraço” (corte drástico de gastos públicos) e de cargos nos primeiros dias de governo, buscando a eficiência administrativa.
Ronaldo Caiado (PSD) Foca em Goiás e Endurece Tom Contra o PT
O candidato à presidência Ronaldo Caiado (PSD) escolheu seu reduto eleitoral, Goiás, para iniciar a campanha. O estado, que governou de 2019 a março deste ano, é onde o ex-governador lidera as intenções de voto, segundo pesquisas eleitorais. A estratégia de iniciar a campanha em uma região onde sua popularidade é comprovada busca dar um impulso inicial e consolidar sua imagem de gestor eficiente.
Acompanhado por apoiadores, Caiado percorreu diversos municípios goianos do entorno do Distrito Federal, como Águas Lindas de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso e Cidade Ocidental, encerrando a agenda em Luziânia. Essa rota sublinha sua conexão com as regiões periféricas e com a realidade local. Posicionando-se abertamente “para tirar o PT do poder”, Caiado garantiu que, caso não avance para o segundo turno, não apoiará o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Essa postura contraria a declaração de Gilberto Kassab, presidente do PSD e vice na chapa de Caiado, que havia indicado no sábado que partidos do chamado Centrão “estão com Lula”. A divergência expõe uma tensão estratégica dentro da coligação e posiciona Caiado como uma oposição mais ferrenha.
O ex-governador de Goiás ressaltou ser o único político com mandato no Brasil que nunca apoiou Lula, solidificando sua imagem como um candidato de oposição legítima. Ele sugeriu que o primeiro turno servirá para a população escolher o verdadeiro candidato anti-Lula para o segundo turno. “Não adianta lançar um candidato [de oposição] que, ao chegar lá, vai ter que ficar explicando seus problemas. Este não ganha a eleição”, comentou o goiano, em uma clara crítica implícita à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que o supera nacionalmente nas pesquisas de intenção de votos, mas enfrenta questionamentos sobre seu histórico.
Caiado garantiu ter entregue melhorias significativas na segurança pública, na educação e na saúde durante sua gestão em Goiás. Ele destacou a importância de os eleitores analisarem as propostas dos candidatos que promovam a responsabilidade orçamentária e o equilíbrio fiscal, temas que foram pilares de sua administração estadual e que agora ele pretende levar para o cenário nacional. A defesa do rigor fiscal aponta para uma agenda econômica de austeridade e controle de gastos públicos.
Outros Candidatos e suas Agendas Iniciais
A diversidade do cenário eleitoral se manifesta nas diferentes abordagens dos demais candidatos. Romeu Zema, pelo Partido Novo, optou por Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, para iniciar sua campanha. O ex-governador mineiro participou de uma missa e almoçou com candidatos de seu partido a deputado federal. Em seu discurso, Zema criticou o governo Lula e expressou confiança em alcançar o segundo turno. Defendeu propostas sobre segurança pública e combate à corrupção, prometendo replicar no Brasil o modelo de gestão que, segundo ele, aplicou em Minas: “O que eu fiz aqui [em Montes Claros] eu vou fazer no Brasil. Sem roubalheira, sem corrupção e com gente competente”.
Já Renan Santos, candidato pelo Missão, realizou seu primeiro ato no histórico Largo São Francisco, centro de São Paulo. O evento contou com a presença de figuras como o deputado federal Kim Kataguiri e o ex-deputado estadual Arthur do Val. Santos criticou o assistencialismo e abordou temas como empreendedorismo e segurança pública. Ele manifestou a ambição de sua chapa: “Nós estamos aqui para colocar o nosso nome na história como a geração que alterou o destino de uma das maiores nações do mundo”, conclamando uma renovação política e geracional.
Augusto Cury, do Avante, iniciou sua campanha em Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG). Ele apresentou seu plano de governo com foco em projetos na área da Saúde, prometendo um mandato que “escuta as pessoas”. Cury buscou um discurso unificador, afirmando: “Nós não estamos em dois barcos, direita e esquerda, esquerda e direita. Estamos num barco só chamado família brasileira. Quem dirige esse barco tem de dirigir com responsabilidade”, propondo uma superação das polarizações ideológicas.
O professor da rede pública e ativista do movimento negro, Hertz Dias (PSTU), realizou caminhadas pela Avenida Paulista, em São Paulo, e em São José dos Campos. Sua campanha defende a reestatização das empresas estratégicas do país. “O Brasil produz riquezas imensas. O problema é que essa riqueza está nas mãos de uma minoria de banqueiros, [empresas] multinacionais e grandes empresários”, declarou, propondo uma alternativa à concentração de riqueza e aos sacrifícios impostos à maioria trabalhadora.
Entre outros candidatos, Samara Martins, da Unidade Popular (UP), organizou um evento de lançamento com militantes em São Paulo. Edmilson Costa, do PCB, optou por uma live em seu canal no YouTube para interagir com os eleitores. Candidatos como Clariana Barão (DC), Rui Costa Pimenta (PCO), Wilson Grassi (Democrata) e Pablo Marçal (PRTB) não divulgaram agenda pública para o primeiro domingo de campanha, indicando abordagens e ritmos distintos no início da corrida presidencial.



