Muitos jovens guardam sonhos grandiosos, mas nem todos encontram os caminhos para realizá-los. Essa realidade, frequentemente invisível, ganha um novo contorno quando a academia decide transpor seus muros e ouvir quem mais precisa.
Em Campinas, uma iniciativa surpreendente tem transformado o diálogo entre universidade e comunidade. Ela mostra que a escuta atenta pode abrir portas para um futuro mais promissor em territórios vulnerabilizados.
Esta é a segunda ação do Fórum da Campanha da Fraternidade, promovida pela PUC-Campinas no último dia 16 de setembro. A atividade reuniu docentes, estudantes e moradores do Campo Belo em um encontro de escuta e reflexão.
O objetivo central foi debater os desafios locais e construir, de forma conjunta, propostas que contribuam para a transformação social. Assim, a universidade se aproxima das realidades mais complexas da cidade.
A programação teve início no Espaço Tamurá-Convivência, prosseguindo para a Cave do Manacás, onde foram exibidos documentários. Estas produções foram realizadas por estudantes e professores da Universidade, a partir de experiências vividas no próprio Campo Belo.
Vozes que se Encontram: Universidade e Comunidade em Diálogo
Após as projeções, uma roda de conversa aproximou a comunidade universitária das lideranças locais. O debate foi focado em questões cruciais sobre as condições de vida e os direitos básicos da população.
Oportunidades para crianças, jovens e adultos também estiveram no centro das discussões. Esse formato horizontal é a base da atuação da PUC-Campinas nessas áreas mais sensíveis.
Para o Coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, Prof. Dr. Pe. Matheus da Silva Bernardes, a relação entre academia e periferia deve ser uma via de mão dupla. Ela se constrói a partir da compreensão das demandas reais do território.
“Quando falamos de territórios vulnerabilizados, estamos falando de lugares onde muitas vezes faltam direitos básicos, como saneamento, água potável, energia elétrica”, destacou o professor. Ele citou ainda a carência de transporte, educação e saúde.
É por isso, explica Pe. Matheus, que a Universidade não pode simplesmente chegar com uma proposta pronta. “É preciso ouvir quem vive essa realidade, acolher seus saberes e, a partir desse diálogo, construir conjuntamente possibilidades de transformação”, afirmou.


Impacto na região
Embora o Fórum da Campanha da Fraternidade tenha ocorrido em Campinas, os desafios abordados no Campo Belo ressoam em outras cidades vizinhas. Municípios como Jundiaí e região também enfrentam questões semelhantes de vulnerabilidade social.
A discussão sobre falta de saneamento, acesso à educação e oportunidades para a juventude é uma realidade comum em diversas periferias urbanas. O modelo de escuta e coprodução da PUC-Campinas oferece um exemplo valioso de engajamento.
Essa abordagem pode inspirar outras instituições e comunidades a buscarem soluções localizadas para seus próprios desafios. Conectar o conhecimento acadêmico às necessidades práticas dos moradores é crucial para o desenvolvimento regional.
Câmeras e Sonhos: O Poder Transformador do Audiovisual na Comunidade
O Cinema como Espaço para Sonhar: A Experiência dos “Filmes-Cartas”
Entre os trabalhos que foram apresentados no Fórum, destacou-se o projeto “Filmes-Cartas”. Desenvolvido pelo Curso de Cinema e Audiovisual da PUC-Campinas, a iniciativa é fruto de um projeto de extensão universitária.
Realizado na Escola Estadual Celeste Palandi de Mello, no Campo Belo, o projeto envolveu cerca de 20 estudantes. A maioria era do 9º ano, além de alguns alunos do Ensino Médio.
Durante um ciclo de oficinas, conduzido por estudantes universitários, os participantes foram convidados a uma profunda reflexão. O foco estava em seus sonhos e no próprio direito de sonhar, um aspecto fundamental para o desenvolvimento.


As cartas eram destinadas a familiares, a si mesmos ou a diferentes personagens. Enquanto isso, eles trabalhavam aspectos técnicos relacionados à imagem e ao som, aprendendo na prática a fazer cinema.
O Coordenador do Curso de Cinema e Audiovisual, Prof. Dr. Caio de Salvi Lazaneo, salientou como a extensão pode abrir caminhos para jovens expressarem desejos e perspectivas de futuro. Principalmente para aqueles em territórios vulnerabilizados.
“Muitos desses jovens têm sonhos e projeções para o futuro, mas encontram desafios muito maiores para construir os caminhos que os levem até eles”, ressaltou o professor. A universidade, ao ouvir e construir junto, faz a diferença.
Ao criar oportunidades de expressão, conhecimento e formação, a universidade ajuda a transformar um pouco a realidade. E, ao mesmo tempo, ela se transforma, pois aprende com os sujeitos e experiências daquele território.
Construindo Pontes: A Força da Extensão Universitária
A segunda ação do Fórum reforçou a premissa de aproximar Ensino, Pesquisa e Extensão das vivências concretas da sociedade. Colocar moradores do Campo Belo, estudantes e professores no mesmo espaço ampliou o debate.
A atividade buscou não apenas apresentar trabalhos desenvolvidos, mas também gerar novas iniciativas a partir das necessidades identificadas pela própria comunidade. É um ciclo contínuo de aprendizado e ação.


“Para quem vive no Campo Belo, esses projetos representam uma possibilidade muito grande”, explicou Silene. Ela enfatizou que, muitas vezes, as alternativas disponíveis são apenas a escola e a creche, limitando as opções.
Quando a Universidade estabelece essa ligação, “ela abre um universo de possibilidades para crianças, jovens, adultos e idosos”, afirmou a representante. São mudanças que impactam diretamente a vida e o bem-estar.
Silene relembrou projetos que fizeram mulheres, que antes quase não se olhavam no espelho, “se enxergarem de outra maneira”. Isso demonstra como pequenas ações podem produzir mudanças importantes na percepção das pessoas e no lugar que ocupam na sociedade.
O Horizonte da Campanha da Fraternidade: Uma Luta por Direitos Básicos
A Campanha da Fraternidade, tradicionalmente, pauta anualmente debates sobre temas sociais urgentes no Brasil. Sua estrutura, porém, vem se adaptando para um engajamento mais profundo e contínuo com as comunidades.
O Fórum da Campanha da Fraternidade 2026, parte das celebrações de 85 anos da PUC-Campinas, representa essa evolução. Ele surge como uma plataforma permanente de discussão e ação.
Historicamente, a Campanha busca educar e mobilizar a sociedade para questões de injustiça social. Atualmente, a necessidade de ir além da conscientização, para a ação prática e a cocriação de soluções, tornou-se evidente.
Com eixos temáticos como moradores em situação de rua, territórios vulnerabilizados e déficit habitacional, o Fórum aborda problemas estruturais que afetam milhões de brasileiros. A iniciativa busca entender as raízes desses desafios.
A relevância do Fórum hoje é inegável, à medida que a polarização e a desigualdade social se aprofundam no país. A colaboração entre instituições acadêmicas e a sociedade civil é um caminho para reforçar a dignidade humana e promover o desenvolvimento.



