Os ex-governadores Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO), dois dos primeiros a lançar pré-candidaturas à Presidência da República para as Eleições de 2026, enfrentam um desafio crescente: a falta de tração junto ao eleitorado. A dificuldade em se consolidar como alternativas viáveis, especialmente no campo da direita, que demonstra preferência pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), impulsiona a possibilidade de uma inédita aliança. Esse cenário abre caminho para a formação de uma chapa conjunta, uma estratégia para fortalecer uma via que busca superar a intensa polarização política atual.
A articulação entre os dois nomes ganha contornos de urgência à medida que o calendário eleitoral avança. A formação de uma chapa unificada, apurada pela reportagem da Gazeta do Povo, é vista como uma medida estratégica para acumular capital político e eleitoral. A definição sobre quem ocupará a posição de cabeça de chapa e quem será o vice ainda não está selada, exigindo mais rodadas de negociações e articulações partidárias. A expectativa é que essa decisão crucial seja tomada até junho, um prazo apertado considerando que o limite para a confirmação das chapas é agosto de 2026, conforme as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Encontros e o Diálogo por uma Frente de Centro-Direita
A aproximação entre Ronaldo Caiado e Romeu Zema não é meramente especulativa, mas resultado de encontros diretos. Os ex-governadores se reuniram em São Paulo no início da semana para uma conversa focada na análise do cenário político e das opções estratégicas para a direita brasileira. Este diálogo inicial teve como objetivo central discutir formas de fortalecer uma alternativa que se posicione à direita do espectro político, mas que consiga furar a bolha da polarização extrema entre as forças que hoje dominam o debate.
Um novo encontro já está agendado para os próximos dias, sinalizando a continuidade das tratativas e a seriedade com que a possibilidade de uma chapa conjunta está sendo tratada. Contudo, as declarações públicas dos envolvidos demonstram cautela. Em entrevista à rádio Jovem Pan, na última quarta-feira (27), Caiado minimizou a intensidade das discussões sobre a aliança. O ex-governador de Goiás afirmou que “a conversa não teve esse nível de entendimento” sobre uma chapa formal. Em vez disso, o foco seria como atuar “dentro de um princípio maior de não dispersar a centro-direita”, uma clara referência à necessidade de evitar a fragmentação de votos em um campo ideológico já desafiado.
Por sua vez, Romeu Zema adotou uma postura mais concisa, limitando-se a declarar que “conversas sempre ocorrem” no ambiente político. Sua fala, no entanto, reforçou um dos pilares de sua pré-candidatura: “tirar o PT do poder”. Essa declaração encapsula a motivação ideológica central que une muitos atores da direita e centro-direita, posicionando uma eventual chapa como um contraponto direto ao atual governo e ao Partido dos Trabalhadores.
Os Desafios Partidários para a Consolidação da Chapa
A concretização de uma chapa Zema-Caiado transcende a vontade individual dos pré-candidatos, esbarrando nas complexas dinâmicas de seus respectivos partidos, o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Novo. Essas legendas operam com estratégias e posicionamentos ideológicos que, embora possam convergir em alguns pontos, possuem diferenças significativas que exigem delicada articulação política. O sucesso da união dependerá da capacidade de ambos os partidos de superarem suas divergências e encontrarem um terreno comum.
O PSD, liderado por Gilberto Kassab, é conhecido por sua habilidade em transitar entre diferentes espectros políticos, da direita à esquerda, com relativa tranquilidade. Sua estratégia frequentemente envolve a pulverização do poder e a busca por influência em diversos cantos do Brasil, adaptando-se a coalizões regionais e nacionais. Essa flexibilidade, embora seja uma força do partido, pode ser um obstáculo para um alinhamento rígido com uma plataforma exclusivamente de direita. Já o Partido Novo possui uma plataforma ideológica mais definida e inflexível. O partido utiliza a corrida presidencial como uma plataforma para manter seu posicionamento antipetista e liberal no espectro da direita, com um discurso focado na renovação política e na redução da máquina pública. Essa rigidez ideológica, que é sua marca registrada, pode dificultar concessões em uma negociação de chapa, especialmente no que tange a um vice ou a um plano de governo mais amplo.
Caiado e Zema Patinam em Pesquisas Eleitorais e Reforçam Polarização
A busca por uma aliança entre Romeu Zema e Ronaldo Caiado não é um movimento isolado, mas uma resposta direta ao cenário de polarização extrema que domina as Eleições 2026. A disputa tem se desenhado predominantemente entre as figuras de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deixando escasso espaço para outras pré-candidaturas. Essa polarização, já observada em pleitos anteriores, solidifica a percepção de que apenas os dois polos principais conseguem captar a atenção e a intenção de voto da maioria dos eleitores.
Mesmo com uma ligeira queda na aprovação de Flávio Bolsonaro, após o vazamento do áudio em que pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o cenário para Zema e Caiado continua desafiador. Essa pequena oscilação do senador do PL não se traduziu em um avanço significativo para as demais pré-candidaturas de direita, o que reforça a necessidade de uma estratégia conjunta para os ex-governadores.
A pesquisa Meio/Ideia, divulgada na última quinta-feira (28), ilustra a dificuldade de ambos os pré-candidatos em ganhar tração. No cenário de primeiro turno que inclui Flávio Bolsonaro e Lula, Ronaldo Caiado registra apenas 5,5% das intenções de voto, enquanto Romeu Zema alcança 2,4%. Juntos, somam 7,9%, um patamar muito distante dos líderes e que indica a urgente necessidade de uma nova abordagem para se tornarem competitivos. Para efeito de comparação, os candidatos líderes, mesmo com variações, frequentemente superam os 30% em cenários similares, evidenciando o fosso eleitoral que os ex-governadores precisam transpor.
Cenário sem Flávio Bolsonaro: Persistência do Desafio
A pesquisa Meio/Ideia também explorou um cenário sem a presença de Flávio Bolsonaro, substituindo-o pela senadora Tereza Cristina (Progressistas – MS) como opção da direita. Mesmo nesta configuração, que teoricamente abriria mais espaço para novos nomes, Caiado e Zema não demonstram um avanço substancial. Ambos permanecem atrás de Tereza Cristina, o que sublinha a dificuldade em se consolidar como a principal alternativa para o eleitorado conservador.
No cenário testado, Romeu Zema, inclusive, aparece numericamente atrás de Renan Santos (Missão-SP), um nome de menor projeção nacional. Os resultados demonstram a fragmentação da direita e centro-direita sem um candidato forte o suficiente para unificar esse eleitorado. A análise a seguir detalha as intenções de voto neste cenário:
- Lula (PT): 38,1%
- Tereza Cristina (PP): 15,9%
- Ronaldo Caiado (PSD): 9,2%
- Renan Santos (Missão): 4,5%
- Romeu Zema (Novo): 3,7%
- Augusto Cury (Avante): 1,6%
- Outros: 3,8%
- Ninguém/Branco/Nulo: 5,4%
- Não soube responder: 17,8%
O alto percentual de “Não soube responder”, que atinge 17,8%, indica uma parcela significativa do eleitorado ainda indecisa ou em busca de uma alternativa convincente. Essa fatia representa um potencial de crescimento para candidatos que consigam apresentar uma proposta clara e mobilizar esse eleitorado flutuante. Contudo, até o momento, nem Caiado nem Zema conseguiram capitalizar essa oportunidade de forma efetiva, reforçando a premissa de que uma chapa unificada seria uma tentativa de se apresentar como uma opção mais robusta e visível.
Desempenho em Segundo Turno e a Distância de Lula
A análise da pesquisa Meio/Ideia se estende também aos cenários de segundo turno, confrontando os pré-candidatos da direita com o presidente Lula. O desempenho, embora ligeiramente melhor para Ronaldo Caiado, ainda revela uma distância considerável em relação ao petista. Em um embate direto, o ex-governador de Goiás soma 40% das intenções de voto contra 46% de Lula. Já Romeu Zema, em um confronto similar, alcança 37%, enquanto o petista mantém os 46%.
Esses números de segundo turno são cruciais para avaliar a viabilidade eleitoral de uma candidatura. A diferença de seis a nove pontos percentuais demonstra que, mesmo em um confronto direto, a tarefa de superar Lula se apresenta como um grande desafio para Caiado e Zema. A formação de uma chapa conjunta poderia, teoricamente, somar as bases de apoio de ambos, buscando reduzir essa margem e apresentando-se como uma força mais competitiva capaz de desafiar o favoritismo do atual presidente.
Metodologia da Pesquisa Meio/Ideia
- Nexus/BTG Pactual 28/5/2026: Foram 1.500 entrevistados pelo instituto Ideia entre os dias 23 e 27 de maio de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Canal Meio S.A.. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos. O registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é nº BR-02918/2026.