“Debasement Trade” impulsiona Ibovespa em dólares, mas investidor local perde rali, dizem analistas

A desvalorização do dólar frente a outras moedas é o principal catalisador dos mercados globais em 2026. O redirecionamento de capitais dos Estados Unidos para outras regiões, especialmente os mercados emergentes, intensificou os fluxos financeiros, remodelou portfólios de investimento e impulsionou as bolsas de valores.
Essa tendência, apelidada de debasement trade por analistas, encontra um ambiente favorável no Brasil. “O Ibovespa, medido em dólares, lidera os ganhos globais no acumulado do ano”, ressaltou o gestor Davi Fontenele. Apesar da valorização, investidores brasileiros mantêm alocação mínima em ações e perderam grande parte desse movimento de alta.
A discussão foi realizada no programa Stock Pickers – Carteiros do Condado, apresentado por Lucas Collazo e Davi Fontenele.
Fluxo Estrangeiro Recorde Contrasta com Saída de Investidores Locais da Bolsa
Dados confirmam o cenário: somente em janeiro e no início de fevereiro, investidores estrangeiros injetaram R$ 33 bilhões na bolsa brasileira, um dos maiores fluxos mensais já registrados. “Foi recorde”, enfatizou Fontenele.
O movimento se opõe ao comportamento dos gestores locais, que continuam a registrar resgates. Fundos de ações e multimercados têm enfrentado saídas desde 2022, reflexo da atratividade da renda fixa. Mesmo com desempenhos de +30%, +40% e até +50% em 2025, o interesse doméstico não se recuperou.
Collazo explicou que parte das vendas é resultado de consultorias que orientam fundos de pensão e fundações a rebalancear seus portfólios após fortes altas, diminuindo a exposição à bolsa mesmo em momentos positivos.
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Enquanto isso, investidores estrangeiros compram justamente os papéis que gestores brasileiros evitam ou mantêm posições vendidas.
Desempenho Superior dos Gestores Brasileiros se Inverte em Três Meses
Entre janeiro e novembro de 2025, gestores brasileiros obtiveram desempenho superior ao Ibovespa, gerando em média +4,4% de alfa. No entanto, a situação se inverteu no trimestre seguinte. De dezembro a fevereiro, a média passou a registrar –7% de retorno em excesso, anulando os ganhos do ano.
A mudança se deve à composição recente das altas. Nos últimos três meses, a Vale (VALE3) subiu mais que o dobro do índice, a Petrobras (PETR4) passou de vilã a destaque e o Itaú (ITUB4) continuou sua trajetória ascendente – precisamente os papéis que muitos gestores mantinham subalocados ou vendidos.
“Eles estavam pessimistas com minério, petróleo e valuation dos grandes bancos”, comentou Collazo.
Com investidores estrangeiros comprando os papéis de maior liquidez, os gestores ficaram do lado oposto da operação e perderam terreno rapidamente.
Perspectiva de Londres: Rotação Global ou Apenas um Solavanco?
Para entender o movimento sob uma perspectiva internacional, os apresentadores convidaram Gustavo Medeiros, head de macro global da Ashmore, brasileiro radicado em Londres e especialista em mercados emergentes.
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“Estamos testemunhando o início de uma rotação longa”, afirmou Medeiros. Segundo ele, capitais foram mal alocados nos últimos anos – “S&P, ouro, bitcoin, tudo que brilhou” – e agora começam a buscar ativos mais descontados.
Ele mencionou o caso da Coreia do Sul, que em 2026 registra alta de mais de 38% impulsionada pelo rali da inteligência artificial, apesar de investidores locais estarem praticamente ausentes do mercado: “Essa história rima com o Brasil”, resumiu.
“Estamos no Fim do Começo”, Afirma Especialista Sobre Ciclo de Mercados Emergentes
Questionado sobre a duração do ciclo, Medeiros ecoou Winston Churchill: “We are at the end of the beginning” (Estamos no fim do começo, em tradução livre). Para ele, os fluxos atuais ainda são pequenos em comparação com os ciclos de alta dos mercados emergentes entre 2004 e 2009.
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No entanto, existem riscos. As eleições de meio de mandato nos EUA podem alterar as expectativas sobre um dólar fraco ou forte.
Medeiros considera que a perda do Congresso é o “cenário base” para Donald Trump, seguindo o padrão histórico americano.
Ainda assim, ele acredita que o cenário de rotação estrutural não se desfaz no curto prazo.
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“2026 tem semanas em que décadas acontecem”, disse, citando episódios recentes: crise do bitcoin, whiplash do ouro e prata, turbulência na Venezuela, o temor de atrito entre EUA e Europa por causa da Groenlândia e a explosão de investimentos em inteligência artificial.
Para ele, a convergência entre avanços tecnológicos e dispersão geográfica do capital tende a manter os mercados emergentes – incluindo o Brasil – no radar dos grandes investidores globais.
Contexto
A notícia aborda a dinâmica dos fluxos de investimento global e seu impacto no mercado brasileiro, especificamente no Ibovespa. A análise destaca a importância do movimento de desvalorização do dólar e a crescente atratividade dos mercados emergentes para investidores estrangeiros, contrastando com a postura mais conservadora dos investidores locais. Compreender essas tendências é crucial para investidores e profissionais do mercado financeiro que buscam otimizar seus portfólios e tomar decisões informadas.