Duas escolas brasileiras conquistaram reconhecimento global. A Escola Municipal GET IV Centenário, no Rio de Janeiro, e a Escola Baniwa Kalipana, no Amazonas, foram anunciadas como finalistas do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026. A notícia, divulgada nesta quinta-feira, 25 de abril, posiciona as instituições entre as dez melhores em suas respectivas categorias, destacando a inovação e resiliência na educação do país.
Em São Gabriel da Cachoeira, eram 2h da madrugada quando o resultado chegou. Na Terra Indígena Alto Rio Negro, estudantes e lideranças Baniwa e Koripako aguardavam acordados. A comemoração explodiu ao ouvir o nome da escola na categoria Ação Ambiental.
No complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, onde o GET IV Centenário atende, o dia foi de festa. A unidade carioca compete na categoria Superação de Adversidade.
“O coração está transbordando de alegria. É muito gostoso a gente receber esse reconhecimento em uma área vulnerável como é a nossa”, comemorou Alessandra Aguiar, diretora do GET IV Centenário.
O GET IV Centenário e a Escuta Ativa
O GET IV Centenário opera na Maré, complexo de 16 favelas marcado pela violência. A região é palco de constantes operações policiais e disputas de grupos armados.
O projeto De Olho na Maré contabiliza 231 operações entre 2016 e 2025. Esses eventos resultaram em 160 mortes e 1.538 ações de violência na última década.
Este cenário impactava diretamente os estudantes, crianças de 6 a 11 anos. A diretora Alessandra Aguiar afirmou que, após uma dessas operações, a escola percebeu a necessidade de um acolhimento. As crianças precisavam falar, expressar suas angústias.
Surgiu o “Café com Música e Prosa”, uma iniciativa de suporte socioemocional. Criada para os dias de maior tensão, abria espaço para os alunos exteriorizarem medos e sentimentos.
Essa escuta se institucionalizou. Tornou-se parte do projeto “Fábrica de Sonhos”, com 20 minutos diários dedicados à fala dos alunos antes do início das matérias. Eles conversam sobre suas questões, sentimentos e preocupações.
“Os 20 minutos que a gente para para ouvir essas crianças no começo do dia, fazem toda a diferença. É um processo diário”, explicou Aguiar.
A abordagem gerou resultados tangíveis. A escola conseguiu zerar o abandono escolar. O índice de alfabetização na idade adequada alcançou 97%.
“Acredito que sem relação, não tem aprendizado. Sem vínculo, não tem aprendizado”, declarou Alessandra. “A relação da gente com a família, a relação da gente com as crianças é muito importante e eles se sentem à vontade e acolhidos para estarem aqui. Às vezes, o que eles não falam em casa, eles contam aqui para a gente.”
O projeto Fábrica de Sonhos coloca o estudante no centro do aprendizado. Utilizando a tecnologia, as crianças investigam problemas reais da comunidade, desenvolvendo soluções práticas.
As famílias são parte essencial do processo. No início do ano, elas participam do planejamento colaborativo, compartilhando metas e definindo responsabilidades com a escola. A metodologia do GET IV Centenário já impacta a rede municipal de ensino. A Prefeitura do Rio de Janeiro incorporará a prática em outras 350 escolas, com potencial de expansão para mais unidades.
A Baniwa Kalipana e os Saberes Ancestrais
Na Amazônia, a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira, representa um modelo educacional enraizado no território. Concorre na categoria Ação Ambiental.
O aprendizado na Baniwa Kalipana baseia-se na gestão ambiental e nos sistemas de conhecimento ancestrais. Todos os professores são educadores indígenas, e a instrução acontece também na língua nativa.
Historicamente, a educação formal muitas vezes desconsiderava os sistemas de conhecimento locais e os modos de vida de jovens em comunidades indígenas remotas. “Isso gerava um distanciamento cultural que aumentava a probabilidade de eles deixarem o território em busca de oportunidades externas e enfraquecia significativamente as chances de transmissão de conhecimento entre gerações”, aponta o texto de apresentação da escola.
A Baniwa Kalipana reverte esse processo. O modelo foi desenvolvido por lideranças locais Baniwa e Koripako, em conjunto com famílias, anciãos e membros da comunidade.
A escola estrutura seu ensino no sistema agrícola Káali. Este sistema indígena milenar conecta o cultivo da mandioca a um vasto repertório cultural e ambiental: conhecimentos ecológicos, memória, cantos, artes, espiritualidade, saúde, produção de alimentos e à vida familiar e comunitária.
O conhecimento territorial se integra às disciplinas regulares, como português, matemática e história. A estrutura curricular apoia explicitamente a adaptação às realidades locais e aos contextos educacionais indígenas, garantindo que o ensino seja relevante e culturalmente apropriado.
O Prêmio Global
O World’s Best School Prizes é promovido pela plataforma T4 Education. Recebe o apoio da Fundação Lemann, American Express e Accenture.
O prêmio possui cinco categorias: Inovação, Ação Ambiental, Colaboração Comunitária, Superação de Adversidades e Apoio a Vidas Saudáveis.
A votação popular está aberta pela internet até 29 de outubro. Os vencedores de cada categoria serão anunciados em novembro. O prêmio em dinheiro é investido diretamente nas escolas vencedoras.
Vikas Pota, fundador e CEO da T4 Education, ressaltou o propósito do prêmio no anúncio. “Essas escolas vêm de partes muito diferentes do mundo. O que elas compartilham é uma clara recusa em aceitar que uma educação de excelência seja reservada para algumas crianças e não outras”, declarou Pota.
Escolas vencedoras e finalistas serão convidadas para o World Schools Summit, em Londres. O evento, marcado para 16 e 17 de janeiro de 2027, reunirá educadores, formuladores de políticas públicas e lideranças do setor educacional para compartilhar experiências e boas práticas.
Contexto
O reconhecimento de escolas brasileiras em um prêmio global destaca a resiliência e a capacidade de inovação pedagógica frente a desafios complexos. No caso do GET IV Centenário, a premiação valida a importância do acolhimento socioemocional e da escuta ativa como pilares para o aprendizado e a redução do abandono escolar em comunidades vulneráveis. Para a Escola Baniwa Kalipana, a visibilidade internacional reforça a urgência e a relevância de modelos educacionais que valorizam saberes ancestrais e a conexão com o território, combatendo o distanciamento cultural e fortalecendo a identidade indígena. Ambos os exemplos projetam luz sobre abordagens eficazes que podem inspirar a reconfiguração da educação pública no Brasil, priorizando as realidades locais e a formação integral dos estudantes.