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Folha Jundiaiense

Bolsonaro enfrenta novo cenário após veto de Lula ao PL da Dosimetria cair.

Derrubada de Veto Reduz Pena do 8 de Janeiro, mas Não Libera Bolsonaro Nem Restaura Direitos Políticos

O Congresso Nacional derrubou, nesta quinta-feira (30), o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei que modifica o cálculo das penas aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. A decisão, que afeta diretamente a dosimetria de crimes, não beneficia imediatamente o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e nem o torna elegível, mas reabre a discussão sobre a readequação de sua condenação, considerando as novas premissas da legislação.

A votação expressiva demonstra a força do Congresso sobre o Executivo em temas penais. Na Câmara dos Deputados, o veto presidencial foi derrubado por 318 votos a 144. No Senado Federal, o placar ficou em 49 votos a 24. Com a rejeição do veto, o texto do projeto segue agora para promulgação. Se o presidente Lula não o fizer em até quarenta e oito horas, a responsabilidade recai sobre o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP). Caso Alcolumbre também não o faça, o vice-presidente do Senado será o responsável pela sanção, garantindo a entrada em vigor da lei.

O Novo Cenário Legal: PL da Dosimetria e a Reinterpretação de Crimes

A nova lei, conhecida informalmente como Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, traz uma alteração substancial na forma como crimes praticados em um mesmo contexto são interpretados pela Justiça. A partir de sua publicação e vigência imediata, a defesa de réus condenados nos atos de 8 de janeiro poderá ingressar com pedido de novo cálculo da pena, que será analisado pelo juiz de execução penal responsável pelo caso. A implementação, no entanto, dependerá da interpretação judicial e da aplicação dos critérios estabelecidos.

Marcelo Crespo, coordenador da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e especialista em direito, explica a principal mudança: “Bolsonaro foi condenado em mais de um crime. E basicamente, o que esse veto faz é dizer que a interpretação é assim: em vez dele responder por dois crimes, ele responde por um só, com uma pena aumentada“. Esta distinção é crucial para entender o impacto da nova legislação nas condenações por crimes conexos.

Pela regra atual do Supremo Tribunal Federal (STF), crimes como golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, quando praticados, são somados, resultando em condenações mais elevadas. O PL da Dosimetria determina que, quando esses crimes são praticados no mesmo contexto fático, eles passam a ser tratados como um único bloco, com a aplicação da pena mais grave acrescida de um aumento proporcional, e não mais a soma integral das diferentes condenações. Essa mudança reflete uma readequação na forma de se aplicar a pena em casos de concurso material de crimes.

A Situação Jurídica de Jair Bolsonaro e a Projeção de Pena

Jair Bolsonaro foi condenado a uma pena de 27 anos e 3 meses de prisão por uma série de crimes graves relacionados aos eventos de 8 de janeiro. A lista inclui organização criminosa armada, golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, deterioração de patrimônio tombado e dano qualificado contra o patrimônio da União. A condenação, proferida pelo STF, é uma das mais significativas na história política recente do país.

Com a derrubada do veto, a defesa do ex-presidente ganha um novo recurso para solicitar a readequação de sua pena. As projeções indicam que a condenação de 27 anos e 3 meses poderia ser recalculada para aproximadamente 20 anos. Isso representaria uma redução de mais de sete anos na pena original, um tempo considerável para qualquer réu no sistema judiciário brasileiro.

Atualmente, o ex-presidente Bolsonaro cumpre prisão domiciliar devido a problemas de saúde, uma condição que permite a permanência em sua residência, mas com restrições e sob monitoramento. A potencial redução da pena, entretanto, não altera sua condição de inelegibilidade, que decorre de outras decisões judiciais e não está ligada diretamente à duração de sua condenação penal.

Consequências na Progressão de Regime e para Outros Réus

A principal consequência prática da redução de pena, caso seja confirmada pelo STF, reside na progressão de regime. Marcelo Crespo detalha que o tempo mínimo para a progressão, antes estimado em aproximadamente 6 anos e 10 meses, poderia cair para cerca de 3 anos e 4 meses. Em um cenário ainda mais otimista, considerando benefícios penais como a remição por trabalho ou estudo, esse período poderia chegar a aproximadamente 2 anos e 4 meses.

É vital frisar, contudo, que essa alteração não opera automaticamente. A efetiva redução e a progressão de regime dependerão de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que analisará o pedido da defesa e a aplicação da nova lei ao caso concreto de Bolsonaro. O processo judicial ainda reserva etapas importantes e não garante uma mudança imediata.

Além do ex-presidente, a derrubada do veto abre caminho para que outros envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 busquem a readequação de suas penas. O Estadão, por exemplo, revelou que o texto tem potencial para antecipar a soltura de parte desses réus. Um caso notório é o de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como “Débora do Batom”, que escreveu “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça” durante a invasão e, com a nova legislação, poderia deixar a prisão domiciliar imediatamente, dependendo da análise de seu caso.

A Nova Arena de Disputa: Argumentos da Defesa e da Acusação

Apesar da expectativa gerada, Marcelo Crespo reitera: “A derrubada do veto ao PL da Dosimetria não absolve Bolsonaro, não apaga a condenação e não restaura seus direitos políticos”. A lei penal mais benéfica opera retroativamente, ou seja, ela pode ser aplicada a fatos ocorridos antes de sua promulgação, desde que beneficie o réu. Este é um princípio fundamental do direito penal brasileiro e o principal argumento da defesa do ex-presidente.

Crespo acrescenta que a derrubada do veto “desloca a disputa para uma nova arena: a execução e revisão da pena no STF”. A defesa, ao invocar a retroatividade da lei penal mais benéfica, ganha um argumento jurídico poderoso. Em contrapartida, o governo e seus aliados políticos e jurídicos ganham um argumento institucional baseado na “possível inconstitucionalidade material e formal da medida”. A inconstitucionalidade material se refere a um eventual conflito do conteúdo da lei com a Constituição Federal, enquanto a inconstitucionalidade formal diz respeito a possíveis vícios no processo legislativo que levou à sua aprovação.

Esta disputa jurídica no âmbito do STF se torna, portanto, um ponto central. O tribunal terá de ponderar o princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica versus as alegações de inconstitucionalidade do novo dispositivo. As decisões a serem tomadas terão impacto direto não apenas no caso de Bolsonaro, mas em precedentes para futuras interpretações de crimes complexos e conexos.

Como resultado de todo esse processo, o PL da Dosimetria deve, de fato, possibilitar a redução da pena de Jair Bolsonaro. No entanto, sua aplicação não implica em concessão de liberdade imediata ao ex-presidente e, crucialmente, não interfere na sua condição de inelegibilidade, que permanece inalterada para as eleições deste ano, conforme decisões anteriores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Contexto

Os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 representaram um dos momentos de maior tensão na história recente do Brasil, marcados pela invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília. A resposta do sistema judiciário, em especial do Supremo Tribunal Federal, resultou em diversas condenações, gerando um debate intenso sobre a aplicação da lei penal e os limites da atuação política. A derrubada do veto e a entrada em vigor do PL da Dosimetria inserem-se nesse complexo cenário, adicionando uma nova camada de discussão jurídica e política sobre a forma como o país lida com crimes contra o Estado Democrático de Direito.

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