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Folha Jundiaiense

Bolsonarismo quer copiar tática do PT que elegeu Lula em 2022

Flávio Bolsonaro, um dos nomes centrais no tabuleiro político do bolsonarismo, concentra sua estratégia para a corrida presidencial de 2026 na exploração do desgaste do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Esta análise, divulgada nesta sexta-feira (17), é de João Paulo Machado, analista de política da XP, que participou da edição especial do programa Mapa de Risco, do InfoMoney, dedicada às estratégias eleitorais.

A tática bolsonarista, conforme Machado, busca replicar o sucesso do Partido dos Trabalhadores em 2022. Naquele pleito, Lula capitalizou o cansaço da população com a gestão de Jair Bolsonaro para consolidar sua vitória e ampliar a rejeição ao então presidente. Agora, o cenário se inverte, com a oposição visando um efeito similar.

Desgaste Petista: O Eixo Central da Campanha Oposicionista

“Me parece que a gente tem uma estratégia muito parecida com a que foi adotada pelo petismo em 2022,” afirmou João Paulo Machado. Ele detalha que, se antes Lula explorava a percepção de “cansaço com o bolsonarismo,” agora a articulação bolsonarista mira o esgotamento com o petismo. Este movimento reflete uma dinâmica recorrente na política brasileira, onde a oposição busca fragilizar a imagem do partido ou líder no poder.

Pesquisas atuais indicam um desgaste que transcende a avaliação direta da gestão. Elas apontam também para o que Machado denomina “tempo de exposição” do presidente Lula. O líder petista disputou direta ou indiretamente todas as eleições presidenciais desde 1989, exercendo hoje seu terceiro mandato e buscando um quarto. Essa longevidade política, embora signifique vasta experiência, pode gerar uma percepção de saturação em parcelas do eleitorado.

A exploração deste “ativo” por parte da oposição implica em uma campanha focada na crítica à perenidade das figuras políticas. Para o cidadão, isso pode significar um debate sobre a necessidade de renovação ou a valorização da experiência, dependendo da narrativa que prevalecer. Para o mercado, a instabilidade política gerada por um debate polarizado sobre os rumos do país pode influenciar decisões de investimento, especialmente em um contexto de transição governamental.

O Legado da Longevidade Política de Lula

A constante presença de Lula nas disputas presidenciais desde o fim da ditadura militar em 1989 até o presente é um fenômeno singular na democracia brasileira. Embora sua trajetória seja vista por apoiadores como sinônimo de resiliência e experiência, críticos podem interpretá-la como um símbolo de estagnação ou falta de renovação. Este aspecto histórico se torna uma ferramenta potente para a oposição.

A percepção de que um mesmo líder ocupou o protagonismo político por décadas pode gerar um desejo de mudança, mesmo em eleitores que não possuem um alinhamento ideológico forte. A campanha de Flávio Bolsonaro, ao focar na “exposição”, busca ativar essa sensação de que “já é hora de algo novo”, sem necessariamente atacar a competência ou o caráter do presidente, mas sim sua presença constante no cenário.

Ampliação do Alcance: Desafio Crucial além do Antipetismo

João Paulo Machado reforça que o discurso antipetista continuará sendo o principal eixo da comunicação de Flávio Bolsonaro. Este é o “terreno mais confortável” para o bolsonarismo, que nasceu e se consolidou politicamente nesse espectro ideológico. A estratégia visa manter o eleitorado já engajado mobilizado, evitando qualquer dispersão de votos para outras candidaturas que possam surgir na direita.

O antipetismo, como força política, estrutura narrativas que frequentemente associam o Partido dos Trabalhadores a temas como má gestão econômica, corrupção ou pautas ideológicas específicas. A manutenção dessa base coesa é vista como essencial para garantir um patamar mínimo de votos e evitar que o eleitorado conservador migre para outras opções. Contudo, essa base, por si só, pode não ser suficiente para uma vitória majoritária.

Simultaneamente à manutenção desse eleitorado, a campanha de Flávio Bolsonaro compreende a necessidade de expandir seu alcance. O objetivo é avançar sobre segmentos onde a direita tradicionalmente encontra maiores dificuldades: o eleitorado feminino e os eleitores de centro. Estes grupos são considerados cruciais para qualquer vitória em pleitos majoritários e representam uma oportunidade de crescimento substancial.

A dificuldade da direita em se conectar com mulheres, por exemplo, muitas vezes está ligada a pautas de costumes ou à percepção de um discurso mais agressivo ou menos inclusivo. Já os eleitores de centro buscam moderação e propostas que equilibrem as agendas sociais e econômicas, distanciando-se de polarizações extremas. Conquistar esses votos é visto como um caminho indispensável para a vitória em 2026, exigindo uma adaptação na mensagem.

A Difícil Equação entre Base e Centro

A prioridade, segundo Machado, será reduzir a rejeição de Flávio Bolsonaro junto a esses grupos específicos, sem, contudo, perder a identificação com a base bolsonarista mais fiel. “O desafio é manter muito condensado esse eleitorado antipetista e conservador, impedindo qualquer desmobilização, mas também ampliar o diálogo com quem não faz parte desse núcleo duro,” pontua o analista da XP.

Este é o eleitorado “menos ideológico” onde o crescimento é esperado. A estratégia envolve uma complexa engenharia de comunicação, onde a campanha precisa sinalizar moderação para atrair novos votantes, sem que essa moderação seja interpretada pela base como uma traição aos princípios do movimento. O sucesso dessa equação será decisivo para ampliar o potencial de voto.

Rejeição: O Fator Decisivo nas Urnas Brasileiras

Renato Dolci, diretor de Dados da Timelens, corrobora a análise de Machado. Ele avalia que a rejeição tornou-se um fator mais decisivo nas últimas disputas presidenciais do que a mera preferência ideológica por um candidato. “A rejeição tem determinado muito mais voto do que a escolha ideológica,” afirmou Dolci durante sua participação no programa Mapa de Risco.

A maioria dos eleitores brasileiros não se posiciona como “altamente ideológica,” segundo Dolci. Grande parte da população acompanha a política à distância e tende a decidir seu voto mais próximo da eleição. Este perfil de eleitor, muitas vezes chamado de “indeciso” ou “flutuante”, é o que acaba por definir o resultado final, sendo mais influenciado por quem ele *não quer* ver no poder do que por convicções programáticas. Entender essa dinâmica é fundamental para as campanhas.

Para as campanhas, isso significa um foco maior em estratégias de comunicação que visem diminuir a antipatia em vez de apenas ressaltar qualidades do próprio candidato. Propaganda eleitoral, discursos e alianças são moldados para neutralizar críticas e projetar uma imagem de maior aceitação, especialmente entre os eleitores que não possuem um alinhamento partidário forte. A gestão da rejeição é uma das tarefas mais críticas no planejamento eleitoral.

Busca por Imagem Moderada para Reduzir Resistências

Diante da centralidade da rejeição, a campanha de Flávio Bolsonaro trabalha para construir uma imagem percebida como menos radical do que a associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Esta moderação estratégica busca justamente reduzir as resistências entre o eleitorado mais amplo e menos engajado ideologicamente.

“O Flávio tem procurado se apresentar como um candidato menos radical, dialogando com públicos onde o bolsonarismo tradicional encontrou dificuldades,” destaca Dolci. A percepção de radicalismo, embora possa gerar “barulho nas redes sociais” e mobilizar uma base fervorosa, nem sempre se traduz em votos efetivos. A maioria do eleitorado brasileiro, de acordo com as análises, tende a rejeitar posições extremas e busca soluções mais pragmáticas.

Essa guinada estratégica implica em uma comunicação mais cuidadosa, talvez com um tom menos beligerante, focando em propostas mais centristas ou de consenso. A tarefa é complexa: manter a identificação com a base leal que aprecia a combatividade, ao mesmo tempo em que se busca amenizar a imagem para atrair o eleitorado que reage negativamente ao radicalismo. Reduzir a rejeição, portanto, torna-se tão vital quanto a mobilização da base para o sucesso da campanha.

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