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Bancada dos influenciadores chega ao Congresso e define futuro

Câmara dos Deputados Recebe Reforço da “Bancada de Influenciadores” a Partir de 2027

O Congresso Nacional passará por uma significativa transformação a partir de 2027 com a chegada de uma nova geração de parlamentares, consolidando a chamada “bancada de influenciadores”. Jovens candidatos, com idades predominantemente abaixo dos 30 anos e milhões de seguidores nas redes sociais, elegeram-se no primeiro turno das eleições de 2026, projetando suas plataformas digitais como a principal base política. Este fenômeno, que abrange espectros da direita à esquerda, introduz uma dinâmica inédita no cenário legislativo, marcando a ascensão definitiva da política digital.

Nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG), André Fernandes (PL-CE), Kim Kataguiri (Missão-SP), Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP) já compõem essa bancada multifacetada. A partir da próxima legislatura, eles receberão o reforço de novos deputados federais, a maioria com mais de um milhão de seguidores e posicionamentos estratégicos para engajamento digital. Esse novo perfil desafia as estruturas tradicionais de campanha e comunicação política, colocando as plataformas online no centro do debate eleitoral.

Ascensão Digital: O Fenômeno da Renovação Política nas Redes

A eleição de 2026 evidencia o poder crescente das redes sociais na formação de novas lideranças políticas. Muitos dos eleitos são jovens, com menos de 30 anos, e utilizam plataformas como Instagram, TikTok, X (antigo Twitter) e Facebook para disseminar suas mensagens. Essa estratégia demonstra um contraste com os métodos de campanha convencionais, baseados em rádio e televisão. O vereador curitibano Guilherme Kilter (Novo-PR), de apenas 24 anos, exemplifica essa tendência.

Kilter, que se destacou como o segundo candidato a deputado federal mais votado no Paraná, com quase 270 mil votos, defende abertamente a renovação política. Em entrevista à Gazeta do Povo, o parlamentar sublinha a diminuição da média de idade na Câmara de Curitiba em 2024, quando ele próprio se tornou o vereador mais jovem da história da capital paranaense, sendo o terceiro mais votado. Para ele, este movimento reflete uma mudança estrutural iniciada anos antes.

“Estamos vendo o resultado de um movimento que aconteceu a partir de 2018, com a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro e o efeito Nikolas Ferreira, o primeiro jovem de direita no Congresso, representando a juventude também nas redes sociais”, afirma Kilter. A eleição do ex-presidente é considerada por ele um paradigma na política nacional, ao demonstrar a supremacia das redes sociais sobre a propaganda tradicional. “O rótulo é o de menos: ser influenciador ou ser criador de conteúdo. O importante é que a gente fala o que as pessoas pensam, representa o que elas acreditam e está disposto a defender esses valores lá no Congresso”, conclui o deputado eleito, que integra o “Bloquinho do 22” e participa ativamente dos atos de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) na reta final do segundo turno.

As críticas sobre a suposta falta de experiência e o uso intensivo das redes sociais são frequentemente direcionadas a esses novos parlamentares. Guilherme Kilter rebate, citando sua produtividade legislativa: ele apresentou mais de 50 projetos em menos de dois anos de mandato em Curitiba, com aprovação de leis de mobilidade urbana e utilidade pública, como o sistema de “alerta tempestade”. “A velha política não tem o que falar e acusa a gente de fazer ‘videozinho’ e ‘dancinha’, o que não é verdade. É uma forma de tentar desqualificar a nossa forma de comunicação”, argumenta. Ele ainda pontua que a “velha política” depende do “toma lá, dá cá”, de emendas e troca de favores, enquanto a nova geração busca uma abordagem diferente.

O que está em jogo: O Impacto da Política Digital na Governança

A ascensão desses influenciadores levanta questões cruciais sobre a natureza da representação política e a eficácia da governança. A capacidade de mobilizar grandes bases de seguidores pode se traduzir em poder político, mas não necessariamente em capacidade legislativa ou de negociação dentro do Congresso. A dinâmica interna da Câmara dos Deputados, com seus ritos e complexidades, exige habilidades que vão além do carisma digital. O foco em pautas de engajamento, muitas vezes polarizadoras, pode dificultar a construção de consensos e a deliberação sobre temas complexos que exigem profundidade e nuance.

Para o cidadão, esta mudança representa uma nova forma de acesso à informação política e uma aparente proximidade com os representantes. No entanto, o risco reside na superficialidade do debate e na priorização de temas que geram maior visibilidade em detrimento de políticas públicas essenciais. O mercado político e as assessorias de campanha adaptam-se rapidamente, investindo cada vez mais em estratégias digitais e na construção de narrativas para redes sociais, o que pode alterar os custos e a forma como as futuras eleições são disputadas.

Direita Impulsiona Crescimento com “Efeito Nikolas Ferreira”

O sucesso eleitoral de candidatos que capitalizam o engajamento digital é notável, com Nikolas Ferreira (PL-MG) no epicentro desse movimento. Aos 30 anos, ele consolida sua posição como o político mais influente nas redes sociais do Brasil, somando aproximadamente 45 milhões de seguidores em plataformas como Instagram, TikTok, X e Facebook. Sua reeleição com 3,1 milhões de votos não apenas reafirma sua popularidade, mas também destaca seu papel como “cabo eleitoral” decisivo.

Nikolas Ferreira foi fundamental para a expressiva votação de Lucas Pavanato (PL-SP), vereador paulistano que obteve pouco mais de 3 milhões de votos em São Paulo para a Câmara Federal. Juntos, Pavanato e Ferreira se tornaram os candidatos mais votados do país nas disputas estaduais para deputado federal em 2026, e sua influência se estende, “puxando” mais 20 eleitos pelo sistema de proporcionalidade eleitoral, um mecanismo que distribui as cadeiras de acordo com a votação do partido ou federação.

Pavanato, que acumula cerca de 10 milhões de seguidores no Instagram, TikTok e Facebook, demonstrou sua presença ativa na campanha. Ele foi um dos convidados de Flávio Bolsonaro (PL) para acompanhar o debate presidencial contra Lula (PT) na sede da Band, em São Paulo. Antes do evento, Pavanato protagonizou um vídeo no formato selfie, chamando o então candidato derrotado ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), de “desempregado”. O vídeo rapidamente se tornou viral, atingindo mais de 1,5 milhão de visualizações na página oficial de Pavanato no Instagram.

A trajetória de Pavanato, que teve suas origens políticas no Movimento Brasil Livre (MBL), agora o coloca sob críticas de antigos aliados. Renan Santos (Missão), co-fundador do MBL e ex-candidato à Presidência, critica a falta de preparo intelectual de Pavanato: “Ele não conseguia sentar numa roda para conversar porque nunca teve cabeça para isso, nunca teve intelecto. Pavanato ganhou fazendo vídeos, dançando funk […] com carro de som, óculos escuros e uma moça ao lado”, declarou Santos após o primeiro turno.

O deputado reeleito Kim Kataguiri (Missão-SP) também expressa preocupação com o direcionamento das pautas, afirmando que as eleições proporcionais de 2026 serão lembradas pelo debate sobre o uso de banheiros e pela priorização de pautas identitárias. “O eleitor, por alguma razão, esqueceu-se dos problemas reais e decidiu se proteger da perseguição trans hipotética. Isso, para quem debate proposta, é um baque e tanto no curto prazo”, pondera Kataguiri. A assessoria de Lucas Pavanato informou à Gazeta do Povo que ele não poderia conceder entrevista devido à intensa agenda de eventos da campanha presidencial do Partido Liberal (PL).

Novos Nomes da Direita na “Bancada de Influenciadores”

  • Lucas Pavanato (PL-SP), 28 anos: Vereador mais votado em São Paulo em 2024. Com 6,3 milhões de seguidores no Instagram, liderou a eleição paulista à Câmara dos Deputados com mais de 3 milhões de votos. Seu estilo provocador e a priorização de pautas identitárias são características marcantes de sua atuação.
  • Jeffrey Chiquini (Novo-PR), 36 anos: O deputado mais votado do Paraná, com mais de 425 mil votos. Advogado, Chiquini foi alçado politicamente pelas redes sociais após defender o ex-assessor do governo Bolsonaro Filipe Martins. Possui 2,7 milhões de seguidores no Instagram.
  • Guilherme Kilter (Novo-PR), 24 anos: Vereador mais jovem da Câmara de Curitiba. Com 1,4 milhão de seguidores no Instagram, chega à Câmara dos Deputados com quase 270 mil votos. Sua trajetória reforça a tendência de jovens líderes digitais no cenário político.
  • Carmelo Neto (PL-CE), 25 anos: Deputado estadual cearense eleito com pouco mais de 56 mil votos. Beneficiado pela expressiva votação de André Fernandes (PL-CE), outro influenciador reeleito com mais de 684 mil votos, Carmelo tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram. Sua esposa, Bella Carmelo (PL-CE), de 25 anos, com 907 mil seguidores, também foi eleita à Assembleia Legislativa do Ceará.
  • Lucas Polese (PL-ES), 30 anos: Deputado estadual mais jovem da história capixaba. Recebeu 419,7 mil votos (19,66% dos votos válidos), tornando-se o deputado federal recordista no Espírito Santo. Com 370 mil seguidores no Instagram, contou com o apoio de Nikolas Ferreira para sua eleição.
  • Julia de Castro (PL-RJ), 24 anos: Estreante nas urnas, a influenciadora conquistou 103,8 mil votos, tornando-se a deputada federal mais jovem da história do Rio de Janeiro. Com 671 mil seguidores no Instagram, também teve o apoio de Nikolas Ferreira, alcançando o Congresso Nacional sem nunca antes ter ocupado um cargo eletivo.

Esquerda Reage e Amplia Presença na Bancada Jovem e Digital

Após observar a hegemonia da direita nas plataformas digitais, a militância de esquerda intensificou sua atuação nas eleições proporcionais de 2026. Essa mobilização antecedeu a priorização da campanha digital pelo presidente Lula (PT) no segundo turno, resultando na eleição de diversos candidatos a deputado federal com milhões de seguidores. A estratégia da esquerda, no entanto, apresenta nuances diferentes, focando na atuação política como geradora de engajamento.

Um exemplo notável é Ana Júlia (PT-PR), 26 anos, a mulher mais votada no Paraná para a Câmara Federal, com mais de 184 mil votos. Em entrevista à Gazeta do Povo, Ana Júlia ressalta que não se considera uma “influenciadora digital”, atribuindo seus 346 mil seguidores à sua trajetória política, que começou como a deputada estadual mais jovem do Paraná. “O alcance nas redes é pela atuação política e pela militância. Essa é a diferença dos quadros no campo progressista: a presença digital é derivada do trabalho cotidiano e do mandato. Para nós, as redes não são um trampolim para as urnas”, compara a petista.

A parlamentar critica veementemente a “política do espetáculo”, que, em sua avaliação, desvirtua a construção de ideias e o debate de propostas. “O foco está em quanto o candidato consegue lacrar, escandalizar e atingir em métricas. O problema é que o algoritmo prioriza determinados tipos de conteúdos, perfis políticos e aspectos ideológicos”, opina Ana Júlia. Ela complementa que “um conteúdo voltado ao ódio ou à raiva ‘viraliza’ mais do que um conteúdo racional e explicativo”, destacando os desafios éticos da comunicação política digital.

Ana Júlia foi uma das jovens eleitas convocadas pelo presidente Lula para fortalecer a campanha digital na tentativa de reverter o resultado contra Flávio Bolsonaro no segundo turno. “O presidente sempre foi uma pessoa acessível e carismática. E, muitas vezes, isso não conseguia se traduzir nas redes sociais dele, até porque ele é um homem de 80 anos. Nossa tentativa foi conseguir adequar o que é o Lula e a história política dele para chegar aos eleitores”, explica, evidenciando a necessidade de adaptar a comunicação para diferentes públicos e plataformas.

Os Principais Nomes de Jovens “Influenciadores” Eleitos pela Esquerda

  • Ana Elisa (PT-MG), 21 anos: A deputada federal mais jovem do país. Considerada o principal nome da esquerda na nova “bancada dos influenciadores”, a mineira disputou sua primeira eleição e foi a segunda mais votada no estado, com mais de 524 mil votos, atrás apenas de Nikolas Ferreira. Chega à Câmara Federal com 5,3 milhões de seguidores no Instagram.
  • Guilherme Cortez (PSOL-SP), 29 anos: Deputado estadual paulista, filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) desde os 16 anos. Entrou na política via movimento estudantil e se declara “bissexual e militante do movimento LGBTI+”. Formado em Direito, tem 1,6 milhão de seguidores no Instagram e recebeu 275.450 votos no maior colégio eleitoral do país.
  • Pedro Rousseff (PT-MG), 26 anos: Vereador de Belo Horizonte e sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff. Eleito na capital mineira em 2024, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados com 118.567 votos. Com 1,3 milhão de seguidores no Instagram, Rousseff afirma que ingressou na política após “o injusto processo de impeachment” contra sua tia.
  • Jones Manoel (PSOL-PE), 36 anos: Deputado eleito que se declara comunista. Disputou sua segunda eleição, tendo concorrido anteriormente ao governo de Pernambuco pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Neste ano, foi o segundo mais votado para a Câmara Federal em Pernambuco, com 249 mil votos. No Instagram, onde tem 2,5 milhões de seguidores, ele se intitula “historiador, escritor, comunicador popular e comunista”.

Desafios e o Futuro da Política Digital no Congresso Nacional

A chegada massiva de influenciadores digitais ao Congresso Nacional impõe novos desafios e discussões sobre o funcionamento e a efetividade do trabalho parlamentar. A ex-deputada federal e vereadora paulistana Janaina Paschoal (PP-SP) expressa uma esperança de que os jovens eleitos, muitos já com experiência em mandatos anteriores, compreendam a necessidade de uma “vivência real na Casa Legislativa”, que transcende a atuação nas redes. “São jovens, quero crer que eles aprenderão”, afirma a vereadora.

Paschoal, contudo, manifesta preocupação com o novo perfil parlamentar, defendendo um debate urgente sobre o papel da Meta (empresa controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp) nas eleições e a influência do impulsionamento de conteúdo durante as campanhas. “Quanto mais sem lógica, quanto mais apelativa, quanto mais grotesca, quanto mais sem fundamento, mais a postagem alcança as pessoas”, comenta a vereadora, que, com 46,7 mil votos, não conseguiu retornar à Câmara Federal em 2026. Ela critica que “a lógica do impulsionamento prestigia a falta de conteúdo”, alertando para o risco de eleger “pessoas sem conteúdo — em uma expressão pejorativa, o ‘pastel de vento’”.

A consultora em marketing político e pesquisadora em comunicação política Vanessa Marques reforça que, além do número de seguidores ou da fama, a identificação com o candidato fortalece o sentimento de pertencimento e representação, estimulando a participação eleitoral. Contudo, ela alerta que o principal desafio para os novatos é discernir que o trabalho parlamentar no Congresso difere substancialmente da atuação nas redes sociais. Marques enfatiza que o número de seguidores ou votos nas urnas não confere peso adicional no debate legislativo. “O enfrentamento está em outra dimensão. Vamos esperar para ver se eles terão a capacidade técnica e política de lidar com os desafios do Congresso. Os 513 parlamentares têm o mesmo poder de voto. Se tiver 1 milhão de votos ou 100 votos nas urnas, o peso é o mesmo”, compara, sublinhando a igualdade regimental entre os deputados.

Contexto

A ascensão dos influenciadores digitais na política brasileira reflete uma mudança global na comunicação e mobilização eleitoral. As eleições de 2026 solidificam um movimento que começou a ganhar força em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, e que agora redefine o perfil do Congresso Nacional. Este fenômeno exige uma adaptação das instituições democráticas e da sociedade civil para lidar com as novas formas de engajamento, polarização e representatividade que emergem das plataformas online, impactando o futuro do debate público e da formulação de políticas.

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