

Em meio à expectativa pela chegada da alta temporada, uma crise silenciosa ameaça o coração turístico da Baixada Santista. Prejuízos já contabilizados e a sombra do desabastecimento, ou da baixa pressão no fornecimento, pairam sobre hotéis, bares e restaurantes da região.
A situação levou uma importante entidade do comércio a uma medida drástica. O Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (Sinhores) acionou o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) para investigar falhas da Sabesp.
Alerta Vermelho: Comércio Aciona MP contra Sabesp por Falta de Água
A representação formal, protocolada pelo presidente do Sinhores, Arthur Veloso, detalha registros de interrupções no abastecimento e até alterações na coloração da água, incidentes observados ao longo de setembro.
A urgência do pedido reflete uma preocupação profunda com os impactos já sentidos pelos negócios locais e a ameaça iminente de novos episódios críticos durante a temporada de verão.
Neste período, a Baixada Santista recebe um fluxo muito maior de turistas, elevando a demanda por todos os serviços de hospedagem e alimentação.
Para os estabelecimentos do setor, a escassez ou a pressão insuficiente de água comprometem operações vitais, desde a higiene básica até a preparação de alimentos e o atendimento aos clientes.
O Impacto Direto nas Operações Diárias
A situação, segundo o Sinhores, vai além de um simples transtorno para os consumidores. Para um hotel, restaurante ou bar, a água é um insumo essencial.
Sua interrupção ou pressão inadequada pode paralisar as atividades, gerar prejuízos financeiros significativos e, ainda mais grave, comprometer os procedimentos de higiene e segurança sanitária.
Veloso enfatizou o dilema enfrentado pelos empresários, que se veem obrigados a investir em mais caixas d’água, um custo adicional imposto pela insegurança do sistema público.
“Como podemos pagar salários, aluguel e impostos sem ter condições de trabalhar por não ter água?”, questionou o presidente, evidenciando a fragilidade da cadeia produtiva.
O Custo Invisível: Prejuízos e Incertezas para a Economia Local
O relatório técnico solicitado ao MP-SP abrange o período de 1º a 20 de setembro, pedindo que a Sabesp detalhe as áreas afetadas, a duração das ocorrências e os níveis de pressão registrados na rede.
A entidade busca clareza sobre a produção, tratamento, reservação e distribuição de água nesse intervalo, além de exigir o acompanhamento da agência reguladora responsável pelo serviço.
A preocupação aumenta com a proximidade do verão, momento em que a população flutuante da Baixada Santista explode, e a procura por serviços ligados ao turismo atinge seu pico.
Impacto na região
Moradores e, principalmente, os empreendimentos da Baixada Santista sentem na pele as consequências do desabastecimento. Hotéis, pousadas, bares e restaurantes, pilares da economia turística local, enfrentam interrupções que afetam a rotina diária.
A forte dependência do turismo, que atrai milhões de visitantes na alta estação, torna a garantia de serviços básicos, como o fornecimento contínuo de água, ainda mais crucial para a prosperidade da região.
Desde a simples lavagem de louças até a manutenção da higiene em cozinhas industriais, a falha na pressão ou na disponibilidade da água impacta diretamente a qualidade dos serviços oferecidos e a experiência do turista.
O medo de afugentar visitantes por problemas na infraestrutura hídrica é palpável, com o setor receando que a imagem da Baixada Santista como destino seja gravemente comprometida.
A Defesa da Sabesp: Chuvas, Obras e a Promessa de Melhorias
Procurada pelo Santa Portal, a Sabesp informou que ainda não foi oficialmente comunicada sobre a representação junto ao Ministério Público, mas prometeu analisar e prestar os esclarecimentos necessários caso seja demandada.
A empresa atribuiu os problemas registrados em setembro a um volume de chuvas superior a três vezes a média histórica para o período na Baixada Santista.
Essa condição climática extrema, segundo a companhia, afetou diretamente a qualidade da água dos rios utilizados no abastecimento, exigindo ajustes operacionais e uma redução temporária da vazão captada e tratada.
A Estação de Tratamento de Água (ETA) Cubatão, por exemplo, teve sua operação comprometida entre os dias 10 e 12 de setembro devido às condições dos mananciais.
Após a melhora das condições dos rios e a adoção de medidas operacionais, a Sabesp afirma que todas as estações de tratamento retomaram o funcionamento pleno, com a recuperação gradual dos níveis dos reservatórios de água tratada ao longo da semana seguinte.
Órgãos fiscalizadores, como a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e a URAE, teriam visitado a ETA Cubatão em 15 e 18 de setembro, constatando o funcionamento adequado da unidade após o incidente.
A Sabesp ainda ressaltou investimentos de R$ 2,4 bilhões em saneamento na região desde 2024, com outros R$ 8,1 bilhões previstos até 2029, visando ampliar a segurança hídrica da Baixada Santista.
Entre as medidas anunciadas, destaca-se a construção de 23 novos reservatórios até 2029, que adicionarão 130 milhões de litros à capacidade de armazenamento de água tratada.
Este volume adicional supera a capacidade de 110 milhões de litros do Reservatório-Túnel Santa Tereza/Voturuá, uma das estruturas de armazenamento existentes na região.
A Geopolítica da Água: Um Desafio Constante para a Segurança Hídrica
A discussão sobre o abastecimento de água na Baixada Santista se insere em um contexto muito mais amplo de desafios hídricos enfrentados por grandes centros urbanos e regiões costeiras em todo o Brasil.
Historicamente, a expansão populacional acelerada, aliada à crescente demanda do turismo e aos impactos das mudanças climáticas, pressiona sistemas de saneamento muitas vezes subdimensionados ou envelhecidos.
A vulnerabilidade exposta pelos episódios de setembro serve como um alerta crucial para a importância da resiliência da infraestrutura hídrica frente a eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos.
Tais investimentos em reservação, tratamento e distribuição, como os planejados pela Sabesp, são fundamentais para garantir não apenas o conforto dos moradores e turistas, mas a própria sustentabilidade econômica e social da região a longo prazo.
A água, mais do que um serviço, é um recurso estratégico cuja gestão eficiente define o desenvolvimento e a capacidade de uma região prosperar diante das adversidades ambientais, demográficas e econômicas do século XXI.



