Impasse em Angra 3: Governo Lula avalia futuro da usina nuclear com custos bilionários
Após quatro décadas e R$ 12 bilhões já investidos, a usina nuclear Angra 3 se tornou um grande desafio para o governo Lula. A obra, paralisada há anos, apresenta um dilema financeiro: cerca de R$ 24 bilhões para ser finalizada ou um prejuízo de até R$ 25 bilhões caso o projeto seja abandonado. A indefinição custa aos cofres públicos aproximadamente R$ 1 bilhão por ano.
Diante desse cenário, o governo federal precisa decidir entre concluir a usina, atualmente com 67% das obras finalizadas, ou assumir o prejuízo e encerrar o projeto. Em ambas as opções, o custo recairá sobre o contribuinte e o consumidor.
Decisão sobre Angra 3 é esperada para este semestre
A expectativa é que o governo defina o futuro de Angra 3 até o final deste semestre. A decisão envolve diretamente o Ministério da Fazenda, que inicialmente resistia à continuidade do projeto devido ao seu impacto nas contas públicas e nas tarifas de energia.
Nos bastidores, a equipe econômica do governo sinaliza uma possível flexibilização, admitindo a retomada das obras mediante a concessão de subsídios e a revisão de taxas. A palavra final caberá ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão ligado ao Ministério de Minas e Energia.
Viabilidade econômica de Angra 3 é questionada por especialistas
Além do debate fiscal e político, existe uma discussão técnica sobre a viabilidade econômica da usina e seus impactos no sistema elétrico brasileiro. Erik Eduardo Rego, professor da Escola Politécnica da USP, argumenta que Angra 3 não é uma opção atraente para o consumidor, considerando alternativas de menor custo e risco.
“Há opções de menor risco e menor custo, como hidro, eólica, solar e gás natural”, afirma o especialista. Segundo ele, a contratação de energia a preços elevados pode reduzir a eficiência da matriz energética brasileira e pressionar as tarifas, com possíveis reflexos na indústria e na inflação. Rego também alerta para a necessidade de atenção em relação aos rejeitos nucleares.
Custos da indefinição pesam no orçamento público
A demora na decisão sobre Angra 3 gera custos significativos. A manutenção da usina consome cerca de R$ 1 bilhão por ano, sem gerar energia para o sistema. Desse montante, aproximadamente R$ 800 milhões são destinados ao pagamento de dívidas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal, segundo dados da Eletronuclear, estatal responsável pela gestão de Angra 1, 2 e 3.
Esse dispêndio, que não aumenta a oferta de energia nem reduz tarifas, agrava a pressão sobre o orçamento anual, já impactado por déficit, metas fiscais e demandas crescentes por gastos sociais.
Ministra da Gestão reconhece dilema sobre o futuro da usina
Um estudo divulgado pelo BNDES em novembro de 2025 indicou que o custo para finalizar Angra 3 aumentou para R$ 23,9 bilhões. A desistência do projeto também representaria um alto custo, estimado entre R$ 21,9 bilhões e R$ 25,97 bilhões para a quitação de dívidas, multas contratuais e desmobilização.
“Não é simples parar porque o custo de não continuar é muito próximo ao de continuar”, declarou a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, em entrevista à Reuters.
O advogado Lucas Monet, especialista em direito empresarial, ressalta a importância de uma decisão técnica e transparente, considerando os impactos sobre a sociedade e a matriz energética brasileira.
Ministério da Fazenda pode flexibilizar posição sobre Angra 3
A equipe econômica do Ministério da Fazenda, que antes se opunha à retomada das obras, agora avalia a viabilização do projeto mediante a redução da tarifa projetada. A Secretaria de Reformas Econômicas (SRE) estuda a utilização de linhas subsidiadas do Fundo Clima e a redução da taxa interna de retorno do projeto.
Para baratear o custo ao consumidor, o governo estaria estudando utilizar linhas subsidiadas do Fundo Clima e reduzir a taxa interna de retorno do projeto, hoje em 8%.
O Tesouro Nacional, no entanto, alerta que qualquer aporte direto na Eletronuclear para sanear a empresa exigirá cortes em outras áreas do Orçamento.
Crise na Eletronuclear agrava urgência da decisão
A urgência da decisão é intensificada pelo risco de insolvência da Eletronuclear. O presidente da estatal, Alexandre Caporal, alertou que a empresa pode entrar em colapso em poucos meses, comparando a situação à crise dos Correios.
A indefinição impede a renegociação de dívidas e ameaça o funcionamento das usinas Angra 1 e Angra 2, já que a manutenção da terceira unidade consome os recursos gerados pelas demais.
“Se o governo não se sente maduro para tomar a decisão, que pelo menos se organize para conseguir um waiver [perdão de cláusulas] nessa dívida”, afirmou Caporal à Gazeta do Povo.
O advogado Diogo Nebias considera que encerrar o projeto significaria desperdiçar um grande volume de recursos, incluindo os gastos para rescindir contratos financeiros e operacionais, além do risco financeiro para a Eletronuclear.
Grupo J&F adquire participação na Eletronuclear
Em 2025, o grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, adquiriu a participação da Axia Energia na Eletronuclear por R$ 535 milhões, tornando-se sócio da União. Apesar de o governo ter o direito de reestatizar 100% da companhia, a opção foi descartada para evitar que a União assumisse sozinha os passivos de Angra 3.
Contexto
A situação da usina nuclear Angra 3 é um tema de grande relevância para o setor energético brasileiro, com implicações diretas no custo da energia para o consumidor e na saúde financeira da Eletronuclear. A decisão do governo sobre o futuro da usina terá um impacto significativo na matriz energética do país e nas contas públicas, gerando debates acalorados entre especialistas e diferentes setores da sociedade.