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Arte no Dique inaugura Escola Glauber Rocha e promove cinema popular

As histórias esquecidas das periferias, frequentemente contadas por quem observa de fora, estão prestes a ganhar uma voz autêntica, vinda de seus próprios protagonistas. Essa é a promessa de uma iniciativa que promete sacudir o cenário cultural e social da Baixada Santista.

Nesta quinta-feira (8), um novo capítulo se abre na trajetória do cinema brasileiro: o Instituto Arte no Dique, em Santos, inaugura a Escola Popular de Cinema Glauber Rocha. Mais do que aulas, é um convite para que moradores da Vila Gilda e arredores transformem suas vivências em arte cinematográfica.

O Cinema Como Ferramenta de Transformação Social

Com um propósito audacioso, a Escola Popular de Cinema Glauber Rocha surge no coração do Dique da Vila Gilda, em Santos, no litoral de São Paulo.

A cerimônia de lançamento, marcada para as 19h, contará com a presença especial de Pedro Paulo Rocha, filho de um dos maiores ícones do cinema nacional, Glauber Rocha, cujo nome batiza a instituição.

Desde sua fundação, há mais de duas décadas, o Arte no Dique tem sido um farol na Zona Noroeste de Santos, utilizando a cultura e a educação para criar pontes onde antes existiam barreiras.

Agora, o audiovisual se integra de forma permanente a esse trabalho, oferecendo uma nova via para o desenvolvimento e a expressão.

A visão vai além do ensino técnico. A proposta é formar novos realizadores, permitindo que as narrativas autênticas da periferia ganhem a tela grande, contadas por quem as vive diariamente.

José Virgílio Leal de Figueiredo, conhecido como Zé Virgílio, presidente e fundador do Instituto Arte no Dique, ressalta a essência inabalável da instituição.

“O Arte no Dique nasceu acreditando que a cultura poderia abrir caminhos onde muitas vezes as oportunidades não chegavam”, afirma. “Mais de 20 anos depois, continuamos com o mesmo propósito: mostrar para cada criança e cada jovem que o lugar onde eles nasceram não determina onde podem chegar.”

A Fábrica de Histórias na Zona Noroeste

Com duração de dez meses, o curso livre e gratuito da Escola Popular de Cinema Glauber Rocha é dedicado a todos os interessados em audiovisual das periferias da Baixada Santista.

A coordenadora Juliana Rodrigues detalha que a formação foi meticulosamente desenhada para imergir os alunos tanto na linguagem cinematográfica quanto na dinâmica profissional do setor.

“Nossa ideia é produzir dois filmes na conclusão de cada ano, com foco total na prática”, explica Juliana, revelando a ambição de transformar a teoria em obras concretas.

A grade curricular abrange todas as etapas da produção audiovisual, incluindo Teoria e História do Cinema, Roteiro, Direção, Direção de Fotografia, Produção, Som, Montagem, Direção de Arte e Comunicação.

Os professores são profissionais ativos no mercado de Santos e São Paulo, garantindo que os alunos tenham contato direto com a realidade do setor. Essa ponte com o mercado permite que os estudantes compreendam as diversas áreas de atuação, as possibilidades de carreira e até mesmo os valores praticados.

“É também uma forma de incentivo para quem se interessa em mudar de área ou enxerga no audiovisual uma possibilidade profissional”, complementa Juliana, sublinhando o potencial de transformação da Escola.

Da Ideia à Tela: Equipamentos Profissionais para Novos Talentos

As aulas combinam harmoniosamente teoria e prática, uma abordagem que ganha força com um investimento significativo em infraestrutura. Graças a recursos provenientes de emenda parlamentar, o Arte no Dique adquiriu equipamentos profissionais.

A estrutura agora inclui câmeras de última geração, sistemas de iluminação e captação de som, além de computadores de alto desempenho para montagem e edição.

Essa capacidade tecnológica permite que os estudantes acompanhem e executem todas as etapas da produção de uma obra audiovisual, desde o rascunho inicial até o corte final.

“A ideia é que tudo seja feito pelos alunos, com orientação dos professores e também de grandes nomes do mercado que serão convidados para palestrar e orientar os estudantes”, esclarece Juliana.

Isso significa que os participantes terão a oportunidade de experimentar desde a concepção de uma ideia e a elaboração do roteiro até a direção, fotografia, som, gravação, direção de arte e divulgação.

Durante a formação, talentos e interesses individuais serão valorizados. Um aluno com afinidade por roteiro ou fotografia poderá aprofundar essa vocação, sem deixar de conhecer as demais áreas essenciais para um cineasta completo.

Impacto na região

Embora a Escola Popular de Cinema Glauber Rocha esteja localizada em Santos, a iniciativa reverbera muito além da Baixada Santista, alcançando cidades como Jundiaí e toda a região metropolitana do estado de São Paulo.

O modelo de formação cultural gratuita, focado em dar voz às periferias, é um exemplo potente de como a arte pode ser um vetor de desenvolvimento social e econômico. Ele inspira discussões sobre a necessidade de descentralização do acesso a ferramentas de expressão em outros centros urbanos.

Para moradores de Jundiaí, a existência de um projeto como este em Santos demonstra a viabilidade de iniciativas semelhantes, estimulando o debate sobre investimentos em audiovisual e formação profissional nas próprias comunidades.

É um lembrete de que o talento está em toda parte, aguardando apenas a oportunidade e os recursos para florescer, impulsionando a autoestima e a representatividade de grupos marginalizados.

Vozes da Comunidade Ganham as Telas Nacionais e Globais

O protagonismo dos alunos e a valorização do território onde vivem são pilares fundamentais da Escola. As histórias que inspiram os projetos nas salas de aula partem diretamente da realidade dos próprios estudantes.

Com a orientação dos professores, essas vivências são transformadas em narrativas cinematográficas, desenvolvendo personagens e propondo novos olhares sobre temas cruciais.

“As histórias partem sempre da realidade dos alunos. Os professores trabalham na orientação dessas ideias, ajudando a encontrar um caminho e um novo olhar sobre os temas abordados”, reitera Juliana. “Nossa ideia é que o aluno seja protagonista e pertencente ao todo, seja no tema escolhido ou no resultado final.”

A expectativa é que a Escola revele uma riqueza de histórias, personagens, memórias e experiências da Zona Noroeste e das demais periferias da Baixada Santista, tudo a partir da perspectiva de quem realmente pertence a esses lugares.

A localização estratégica da iniciativa carrega um simbolismo especial. “Sendo Santos a cidade do cinema, queremos colocar a Zona Noroeste como protagonista também da formação de novos talentos desse mercado”, pontua a coordenadora.

Além das Fronteiras: Filmes para o Mundo

O alcance das produções realizadas na Escola não se limitará às salas de aula. A intenção é que os filmes criados pelos estudantes sejam inscritos e apresentados em mostras e festivais de cinema, tanto no Brasil quanto no exterior.

O Arte no Dique já está trabalhando na construção de uma parceria estratégica na França, visando ampliar o intercâmbio cultural e abrir novas portas para os jovens cineastas formados pela Escola.

“Queremos que os filmes produzidos pela Escola passem em festivais em todo o Brasil e também no exterior”, reforça Juliana. “Temos uma parceria sendo construída na França que vai abrir uma porta muito grande para a expansão da Escola e para a revelação dos talentos que passarem por aqui.”

O Legado de Glauber Rocha no Século XXI

A escolha do nome de Glauber Rocha para a Escola Popular de Cinema não é casual. Ela reforça a missão de estimular um cinema que mergulhe na alma do Brasil, explorando suas contradições, identidades multifacetadas, vastos territórios e personagens únicos.

A presença de seu filho, Pedro Paulo Rocha, na inauguração, cria uma conexão simbólica poderosa. Une o legado do Cinema Novo a uma nova geração de realizadores que, partindo da periferia de Santos, começam a construir suas próprias narrativas, carregadas de autenticidade e propósito.

Para o Instituto Arte no Dique, a abertura da Escola Popular de Cinema Glauber Rocha transcende a simples inauguração de um curso. É a consolidação de um espaço permanente onde novos olhares podem emergir, novas profissões são descobertas e, crucialmente, onde a periferia deixa de ser apenas cenário.

É um manifesto para que esses locais ocupem, cada vez mais, os assentos de autoria, direção, criação e protagonismo, ressignificando seu papel na cultura e na sociedade brasileira.

A Evolução da Voz na Sétima Arte Brasileira

A criação desta escola de cinema popular em Santos insere-se em um cenário mais amplo de democratização do acesso à cultura e aos meios de produção artística no Brasil. Historicamente, o cinema foi um campo elitizado, com narrativas predominantemente centradas em classes sociais privilegiadas ou visões externas sobre as realidades populares.

A figura de Glauber Rocha, nome que batiza a escola, é emblemática. Seu trabalho no Cinema Novo nos anos 60 e 70 buscava justamente romper com essa hegemonia, propondo um cinema mais autoral, crítico e profundamente enraizado nas questões sociais e culturais brasileiras.

Décadas depois, o desafio de descentralizar a produção audiovisual e dar voz a quem nunca a teve permanece. A era digital, com equipamentos mais acessíveis e plataformas de distribuição globais, intensificou esse movimento, permitindo que mais pessoas contem suas próprias histórias.

Por isso, iniciativas como a Escola Popular de Cinema Glauber Rocha importam agora mais do que nunca. Elas não apenas capacitam tecnicamente, mas também empoderam socialmente, oferecendo as ferramentas para que identidades diversas se vejam representadas e para que o Brasil conte suas múltiplas verdades, sem filtros, para o mundo.

Serviço

Inauguração da Escola Popular de Cinema Glauber Rocha
Data: 8 de outubro de 2026
Horário: 19 horas
Local: Instituto Arte no Dique – Dique da Vila Gilda, Santos
Participação especial: Pedro Paulo Rocha, filho de Glauber Rocha

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