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A Jundiaí Oculta: Túneis Secretos, Arquitetura Centenária e o Renascimento do Teatro Polytheama

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O transeunte moderno que caminha apressado pelo calçadão da Rua Barão de Jundiaí ou cruza a Rua do Rosário raramente desvia o olhar das vitrines para observar o que está acima das marquises ou sob a camada espessa de asfalto. Contudo, sob a roupagem contemporânea de seu pujante comércio, o Centro Histórico de Jundiaí é um labirinto de memórias silenciadas, lendas urbanas enraizadas e projetos arquitetônicos de relevância internacional.

Neste quinto capítulo da série especial Jundiaí em Foco, a Folha Jundiaiense convida o leitor a olhar para além do óbvio. Vamos desmistificar a célebre lenda da rede de túneis subterrâneos, explorar a cripta invisível da nossa igreja matriz e celebrar o resgate de um dos teatros mais importantes do Brasil.

A Lenda dos Túneis Secretos: Engenharia ou Fuga?

Não há jundiaiense nato que nunca tenha ouvido falar das passagens secretas do Centro. A lenda urbana, transmitida pela tradição oral há mais de um século, narra a existência de uma intrincada rede de túneis que interligaria os principais edifícios do poder colonial e imperial: a Catedral Nossa Senhora do Desterro, o Mosteiro de São Bento e o Solar do Barão.

As teorias populares para o uso dessa malha subterrânea são ricas e cinematográficas. Algumas correntes afirmam que os túneis serviam para a fuga de religiosos durante levantes políticos no período do Império; outras asseguram que eram rotas de fuga para pessoas escravizadas ou corredores discretos para encontros amorosos proibidos da elite cafeeira.

A pesquisa arqueológica e histórica, porém, lança uma luz muito mais pragmática — embora igualmente fascinante do ponto de vista da engenharia — sobre o mito. O historiador e sociólogo jundiaiense Maurício Ferreira esclarece a verdadeira natureza dessas construções:

“As galerias subterrâneas encontradas no centro de Jundiaí ao longo das décadas, durante escavações e reformas, não são túneis de fuga. Trata-se, na verdade, de um antigo e robusto sistema de captação de águas pluviais e esgotamento sanitário construído no século XIX. Como as galerias eram feitas com tijolos de olaria em formato de arco e possuíam dimensões largas para evitar o colapso estrutural, o imaginário popular rapidamente as transformou em ‘túneis secretos’.” (FERREIRA, 2018).

Ainda que a lenda caia por terra diante da engenharia sanitária do século XIX, o fascínio por essa “Jundiaí Subterrânea” permanece como um bem cultural imaterial da cidade.

A Catedral Neogótica e a Cripta do Altar-Mor

Marco zero do município, a Catedral Nossa Senhora do Desterro é o coração geográfico e espiritual de Jundiaí. A majestosa construção neogótica que domina a paisagem central, no entanto, é o resultado de uma metamorfose arquitetônica profunda.

A edificação original, erguida em 1651 [Sugestão de Link Interno: durante a gênese da cidade por Rafael de Oliveira], era uma modesta capela de taipa de pilão. Foi somente no início da década de 1920 que a matriz passou por sua reformulação definitiva. Sob a batuta do escritório do renomado arquiteto Ramos de Azevedo, o templo ganhou suas imponentes torres pontiagudas, abóbadas nervuradas e os deslumbrantes vitrais que filtram a luz vespertina.

O que escapa aos olhos da maioria dos fiéis e turistas é o espaço solene oculto exatamente sob o altar-mor. A Catedral abriga uma cripta subterrânea restrita, onde repousam os restos mortais dos bispos que comandaram a Diocese de Jundiaí, a exemplo de Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, o primeiro bispo diocesano. É um dos espaços mais silenciosos, sagrados e desconhecidos do perímetro urbano.

O Renascimento do Polytheama e a Genialidade de Lina Bo Bardi

Se a religião e a política moldaram o Centro, a arte encontrou o seu templo na Rua Barão de Jundiaí. Inaugurado em 1911, o Teatro Polytheama (do grego, “muitos espetáculos”) foi concebido para ser o epicentro cultural do interior. Com capacidade projetada para quase três mil pessoas na época, recebia de companhias de ópera europeias às primeiras exibições do cinematógrafo.

Contudo, com a proliferação dos cinemas de rua e a mudança dos hábitos culturais, o teatro mergulhou em profunda decadência a partir da década de 1960. Nos anos 1980, a demolição do prédio histórico era dada como certa para dar lugar a um estacionamento ou a galerias comerciais.

A salvação arquitetônica veio no final dos anos 1990 através das mãos de uma das arquitetas mais brilhantes do século XX: a ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (autora do projeto do MASP, em São Paulo). Contratada para revitalizar o espaço, Lina tomou uma decisão projetual que chocaria os puristas, mas que garantiu a imortalidade do edifício:

“Em vez de mascarar as marcas do abandono com reboco e gesso, o projeto de Lina Bo Bardi escancarou o tempo. Ela manteve as grossas paredes de tijolos aparentes com suas cicatrizes e inseriu estruturas metálicas pesadas, escadas industriais e cadeiras de palhinha, criando um contraste brutalista e poético.” (INSTITUTO LINA BO E P.M. BARDI, Acervo de Projetos).

Reinaugurado em 1996, o Teatro Polytheama tornou-se uma referência nacional em restauro e acústica, provando que o patrimônio histórico não precisa ser “congelado” para ser preservado, mas sim adaptado para continuar vivo.

A herança dos tijolos de barro do Polytheama dialoga diretamente com as imensas chaminés industriais da Vila Arens e do Complexo Fepasa, mostrando que a identidade arquitetônica de Jundiaí é forjada no barro, no ferro e na resiliência de suas construções.



Referências Bibliográficas

  • BO BARDI, Lina. Teatro Polytheama: Cadernos de Restauro e Projeto. São Paulo: Instituto Bardi, 1995.
  • FERREIRA, Maurício. Patrimônio Histórico e Lendas Urbanas do Interior Paulista. Jundiaí: Edição do Autor, 2018.
  • IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Bens Tombados no Estado de São Paulo: O Caso de Jundiaí. Brasília: Ministério da Cultura.
  • ZAMBONE, José Carlos. A História da Igreja Matriz de Jundiaí (Catedral Nossa Senhora do Desterro). Jundiaí: Mitra Diocesana, 2005.

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